O problema da causa no discurso político
Termino aqui a reflexão sobre as causas da mendicidade segundo a Ministra da Mulher e Acção Social. “Se as famílias faltam à sua responsabilidade, as crianças e idosos vão para a rua [mendigar]”. Vejamos de novo a afirmação completa da Ministra:
Em relação à criança e todos os outros grupos vulneráveis que existem por aí, a maior responsabilidade está na família. Qual é a responsabilidade do Ministério? É fazer com que a família, a sociedade e a comunidade mudem de atitude no atendimento a estes. A criança aparece na rua porque nós adultos fugimos à responsabilidade de pais (pais responsáveis), porque nós temos que ter uma postura completamente diferente quando somos pais. A nossa responsabilidade é fazer de tudo para que esta criança possa ser educada. Os idosos que estão na rua são nossos pais. Que responsabilidade tem cada um de nós em relação aquele que lhe deu a vida? Então, as pessoas sentem-se marginalizadas, saem das suas casas e vão para a rua. Muitos têm subsídio de alimentação, cesta básica, mas ao homem não basta que se dê dinheiro, porque ele não é feito só de matéria; tem coração e sentimentos. Se ele tem dinheiro, mas não tem a palavra meiga do filho, ele tem que procurar lá fora aquele carinho.
Penso que a forma como resumi o argumento da Ministra é justa. Penso até que ela é mais categórica do que o meu resumo, mas como ela evoca a “pobreza imensa” que afecta as famílias que acolhem crianças e idosos é justo traduzir o seu argumento de forma hipotética. Referi na minha segunda postagem que o argumento da Ministra tem dois níveis, nomeadamente moral e lógico. Enfatizei o segundo nível propositadamente para concentrar a nossa atenção no que é verdadeiramente do nosso pelouro. Algo me diz, contudo, que o argumento da Ministra se baseia no nível moral. Não é defeito cognitivo ou intelectual. É próprio do campo de acção em que ela evolui. Ela é política e a política vive deste tipo de argumentos.
Na verdade, duvido que no seu exercício sistemático de análise dos factores que concorrem para a mendicidade de crianças e idosos se tenha debruçado sobre os outros factores que mencionei na minha postagem anterior. Dito de outro modo, parto do princípio de que a Ministra formulou a sua hipótese com base na sua atitude normativa, nomeadamente na ideia de que uma sociedade harmoniosa é aquela em que as famílias assumem a responsabilidade pelos seus membros. Se todas as famílias fizerem isso, não haverá problemas sociais. Daí que seja necessário “sensibilizar” as famílias e, como ela diz num outro ponto da entrevista (ler aqui), proibir a esmola – como forma de devolver as pessoas às famílias. Este é um terreno difícil para as ciências sociais, pois os conceitos são escorregadios. Antes de entrarmos nesta discussão teríamos de clarificar, com a Ministra, o significado de “esmola”, “família”, “responsabilidade”, “marginalização”, “mudança de atitude”, “grupos vulneráveis”, “postura”, “postura diferente”, “ir para a rua”, “palavra meiga”, “carinho”, “procurar carinho lá fora”, etc. Tentar clarificar isso tudo era razão mais do que segura para sermos acusados de cinismo e, inevitavelmente, arrogância.
O mais provável, portanto, é que esses conceitos todos fiquem na penumbra, mas sejam centrais à discussão de aspectos importantes da nossa vida. Contentamo-nos em supor que estejamos em posse de uma explicação e fazemos dessa suposição a base da nossa acção. A questão de saber se existe sustento empírico para a ideia de que a falta de responsabilidade da família é que está na origem da mendicidade de crianças e adultos fica em segundo plano, pois o que importa é que o Ministério esteja a trabalhar e que esse trabalho decorra de uma profunda identificação com os melhores interesses do País. O mau da fita fica aquele que interpela e quer saber se a ideia faz sentido empírico ou não.
Na ausência dessa abertura de espírito para a interpelação crítica honesta e isenta sobra apenas o desabafo, um desabafo que produz um País também distante da realidade empírica. A Ministra diz “se as famílias faltarem à sua responsabilidade, as crianças e idosos hão-de ir para a rua [mendigar]” e nós os outros gritamos “mentira, as famílias não faltam à sua responsabilidade!” ou “é verdade, há muitos mendigos por aí!”. O nosso debate público reduz-se precisamente ao que não nos leva a sítio nenhum do ponto de vista argumentativo. Promovemos, efectivamente, o silêncio (leiam esta reflexão aqui e aqui). Tudo na melhor das intenções.
Muitos me escrevem de Maputo ou me interpelam lá mesmo. Quando estão de acordo comigo, perguntam-me como consigo perceber o País tão bem estando longe. Quando não estão de acordo, dizem-me que não conheço o País, que a internet e imprensa não são o País. E eu? Que dizer? Fico apenas a pensar na expressão xangane que diz “makholwa hi kusviwona” (aquele que apenas acredita no que vê). O mundo está tão complexo – mas cada vez mais resultado do que nós as pessoas fazemos – que me parece problemático continuar a depositar fé nesta expressão. Se calhar até a realidade está cada vez mais distante de nós e o único recurso que temos para a apreendermos é a competência no debate. Os gregos da antiguidade sabiam isso. Mesmo os nossos próprios avôs sabiam disso, pois se há alguma coisa que as pessoas verdadeiramente admiram noutras nos nossos contextos mais tradicionais é a capacidade retórica.
Preciso mesmo de ver o País para o poder apreender? O camponês percebe melhor o seu mundo do que eu? O Governador da província percebe melhor a sua província do que eu? O Ministro percebe melhor o seu sector do que eu? O Presidente percebe melhor o País do que eu? Antes que a acusação de arrogância volte a cair: o que estou a perguntar aqui é justamente o que significa “perceber”. E digo mais: se cada uma destas pessoas que mencionei aqui pode me explicar o que entende por “perceber”, então não preciso necessariamente de ver nenhuma “realidade” para a poder “perceber”. Posso confiar nos protocolos das pessoas para aceder a essa realidade. A modéstia académica, contudo, vai me obrigar a ser menos categórico. Ela vai dirigir a minha atenção para as coisas que me permitem dizer com segurança que “percebi” o que as pessoas querem dizer ou o que dizem ter “visto”.
Daí que tenha dito no início desta reflexão crítica sobre a entrevista da Ministra da Mulher e Acção Social que o mais importante não é demonstrar que ela esteja errada. Em ciências sociais, a excepção de questões factuais, o erro não existe. Nós interpelamos criticamente para percebermos melhor. Por exemplo, um resultado possível da interpelação crítica à ideia segundo a qual a falta de responsabilidade familiar estaria na origem da mendicidade de crianças e idosos seria de permitir à Ministra dizer, “existe um número considerável de casos em que as crianças e idosos que vão para a rua [mendigar] são oriundos de famílias que não estão em condições de assumir as suas responsabilidades em pleno”. Não é ainda óptimo, mas já é melhor do que a generalização grosseira contida na entrevista. E permite uma discussão pública mais consequente – no sentido da fala com consequências! – na medida em que não nos coloca perante alternativas impossíveis: ou proibimos a esmola ou continuamos com o fenómeno da mendicidade. Ou responsabilizamos as famílias ou continuamos com o fenómeno de crianças e idosos que vão à rua “procurar carinho”... Já que é evidente que na rua não encontram o carinho, porque não voltam para as suas famílias?
Lanço, então, de novo o meu apelo de sempre: as ciências sociais são relevantes, mas não são os políticos que vão estabelecer essa relevância. Eles não detêem o conhecimento necessário, nem é essa a sua vocação. A relevância das ciências sociais não se pode confundir com a confirmação de preconceitos ideológicos. Mesmo discordando com o senso-comum ou com a posição política, as ciências sociais estão a ser relevantes. Elas contribuem para uma melhor compreensão da realidade que os políticos querem transformar. Aos jovens cientistas sociais lanço apenas o apelo de que continuem a interpelar criticamente tendo em conta que criticar não é apenas identificar erros ou mostrar que os outros não prestam. Criticar é ajudar-nos a perceber melhor o nosso País. Não se esqueçam disso, por favor.