segunda-feira, janeiro 22, 2007

Os tentáculos da dependência

Recebi hoje, através do fórum "moçambiqueonline", a seguinte carta do semanário SAVANA. Vale a pena estudá-la.

“SAVANA: Ano 14

Dentro de dois dias é data de aniversário no jornal.

É melhor precisar a data, porque nos dias que correm, o dia e a hora a que o leitor tem acesso ao jornal, podem trair os cálculos.

O jornal saiu à rua, a primeira vez, a 21 de Janeiro de 1994, o que significa que vamos entrar no nosso 14º. ano de existência.

Fazemos o jornal todas as semanas, mas infelizmente não controlamos todas as fases do processo, até os nossos queridos leitores e assinantes terem a edição nas mãos.

Dependemos de terceiros para que as nossas notícias, reportagens, investigações e opiniões sejam postas preto no branco, em suporte papel e depois transportadas de Maputo até Lichinga, de carro e avião.

Custa-nos muito não termos impressão própria para podermos controlar uma parte crucial do processo produtivo. Custa-nos muito não termos meios próprios para pôr na rua todos os dias um irmão do SAVANA, que seja uma alternativa ao actual “status quo”. Custa-nos não podermos acrescentar outras mais valias à nossa produção que poderiam passar pelo livro escolar que é feito no exterior.

Sensivelmente há uma década, um projecto de uma das agências especializadas das Nações Unidas, concluiu que não era necessária uma tipografia, uma impressora, uma rotativa para muscular a emergente imprensa alternativa do país. A mesma agência, com a cumplicidade de vários doadores, não teve os mesmos problemas teóricos para oferecer emissores à rádio estatal.

Qualquer estudo sério poderá tirar conclusões da actual situação do parque gráfico do país. Moçambique não é a Polónia, a Checoslováquia, a Ucrânia ou a Bielorrússia. Não há nenhum perigo comunista insinuante para invadir o país de rotativas a custo zero. Moçambique não é, felizmente, o Zimbabwe ou Angola para merecer da comunidade internacional classificações severas em matéria de liberdades individuais e que se traduzem em generosas ofertas de equipamento tipográfico e papel, para que as vozes da liberdade se continuem a ouvir. A morte de Cardoso não foi suficiente para impressionar os que vêm o país em tonalidades cor de rosa.

Com altos e baixos, como todos, trabalhamos arduamente para nos guindarmos à posição de referência que hoje ocupamos. Não acotovelamos ninguém, respeitamos a concorrência. Não assaltámos os cofres do BCM, nem os do Banco Austral, não temos o mapa do Tesouro, nem tão pouco tivemos mão amiga que nos orientasse nas privatizações. Estamos noutra área que passa ao lado dos dinheiros a fundo perdido para bovinos, caprinos, leguminosas, cereais e culturas de exportação. Não somos prioridade.

Somos um pequeno grupo de teimosos que acredita na empresa, no sector e que procura compreender os números frios da contabilidade de custos, do deve e do haver, para manter o nosso barco acima da linha de água. E claro que temos imenso prazer em escrever sobre nosso país, sobre os desafios que a todos se colocam, sobre as complexidades da região e do mundo que nos cerca. É isso que nos anima todas as semanas, quando nos sentamos à frente dos computadores, para darmos forma final aos conteúdos que pomos à vossa disposição.

Estamos tristes neste momento de celebração e de orgulho, porque os nossos fiéis leitores estão a ser penalizados pela chegada tardia do jornal às vossas mãos.

Estamos a trabalhar para que o fruto do nosso suor honesto, com todos os defeitos e falhas que somos os primeiros a reconhecer, chegue a todos, a tempo e horas.

Mas não foi por acaso que inscrevemos, debaixo do título SAVANA, as palavras: Semanário Independente.”

O jornal SAVANA é um dos melhores do país. É sempre um prazer imenso ler as suas páginas de opinião bem como as suas excelentes crónicas. Uma imprensa assim é uma dádiva muito grande num momento em que os espaços de debate intelectual ainda fazem falta no país. Aproveito, já agora, para dizer que uma das pessoas que faz com que este semanário seja uma referência importante é Machado da Graça com cujas análises, porém, frequentemente não estou de acordo. Destaco-o aqui por ter lido esta semana jornais do mês de dezembro em que um cronista com pseudônimo, Kandiyane Wa Matuva Kandiya, critica Machado da Graça de forma grosseira, racista e mal educada que me deixou perplexo em relação à seriedade do próprio semanário DOMINGO que publicou os artigos. E queria registar a minha solidariedade para com Machado da Graça. O SAVANA confirma a minha convicção de que um país se faz na esfera pública e se mede pela qualidade do debate. A imprensa é para nós cientistas sociais um espaço privilegiado não só para veicularmos as nossas ideias, mas também para tomarmos o pulso da nossa sociedade. Há muita coisa que podemos aprender sobre o nosso país lendo atentamente os nossos jornais.

O semanário SAVANA podia ter anunciado o seu aniversário de forma diferente, mas com o mesmo efeito. Podia ter dito que foram 14 anos difíceis ao serviço da liberdade de imprensa; podia ter acrescentado que gostaria de fazer mais, como por exemplo ter um jornal diário e expandir as suas áreas de actividade para a edição de livros escolares; podia ter dito que não pode fazer estas coisas todas porque não dispõe de meios e, sobretudo, de uma tipografia própria. Podia até ter concluído dizendo que essas são as vicissitudes do empreendimento privado num contexto de economia de mercado. E teríamos todos percebido muito bem a mensagem. Mas o SAVANA não fez isso. Como que a convidar-nos a termos reticências sérias em relação ao sentido que dá à noção de independência, o SAVANA optou pela via da insinuação servindo-se, para piorar as coisas, de argumentos falaciosos.

Assim, o estudo feito por um organismo das Nações Unidas e que decidiu que não era necessária nenhuma tipografia adicional em Moçambique foi simplesmente motivado por maldade. Essa maldade tornou-se até em cumplicidade com restantes doadores ao decidir dar emissoras à rádio estatal (subentende-se aqui que esta decisão foi errada, embora não esteja claro porquê; porque foi ao Estado? Porque, assim, se reforçou o “status quo”?). Mas há mais. O SAVANA precisa urgentemente do apoio da comunidade internacional porque o que está a fazer não é simples jornalismo. Está a lutar pela liberdade contra um Estado opressor que não olha a meios para alcançar os seus objectivos: assassina, rouba, acotovela.

Eu sei que já há muito que estou a irritar muita gente com a insistência no reconhecimento dos desafios científicos (e não políticos) que estas coisas nos colocam. E esta carta do SAVANA coloca-nos de facto vários. O primeiro desafio parece-me até crucial: que ideia é que se tem em Moçambique de uma economia de mercado? Suponho que sejam várias ideias. O segundo desafio seria de saber que papel é que ideias patrimonialistas desempenham no empreendedorismo moçambicano. Parece-me, mas não tenho a certeza, que o SAVANA cai aqui no erro que imputa ao sistema político, nomeadamente o uso de influências e argumentos alheios ao mercado para fazer o seu negócio. Os tentáculos da dependência são tão compridos que em todo o lado corremos o risco de tornar o nosso país numa representação daquilo que nos cria espaço individual. Cada qual vende a imagem que mais lhe convém (comercialmente) do país. Terceiro, qual é o impacto da liberdade de imprensa (pode-se aproveitar para perguntar se ela existe, como existe e se manifesta) na qualidade do debate? Isto seria uma maneira de procurar saber de que maneira é que o nosso país se manifesta nos assuntos (e na forma como eles são abordados) que dão substância à esfera pública. Vamos pôr mãos à obra. Quem pensa que ser cientista social é apenas andar a repetir chavões enganou-se na profissão!

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