quarta-feira, janeiro 24, 2007

A caixa de ferramentas do sociólogo

Começo, então, hoje com a discussão sobre a estrutura social. Eis o primeiro texto.

A estrutura social


Este é um dos conceitos mais interessantes da sociologia. Está na boca de quase toda a gente, incluíndo daqueles que pouca ideia fazem do seu significado. O conceito está também no centro de muita controvérsia metodológica-analítica, pois para alguns não está clara a sua utilidade. Uma das razões por detrás dessa controvérsia há-de residir nas associações que o conceito evoca. De certa maneira, o conceito evoca a ideia de que a sociedade pode ser vista como um todo, possivelmente um todo coerente e integrado. Ou por outra, a ideia de uma estrutura social evoca uma imagem de sociedade como algo com uma estrutura própria que lhe dá essência.

Falamos de classes altas, médias e baixas. Por vezes utilizamos a figura geométrica de pirâmide para criticarmos a distribuição de riqueza e oportunidades no interior de uma sociedade. Para não complicar demasiado as coisas, gostava que retivéssemos a ideia de sociedade como algo que está de alguma forma estruturado. Seria bom também que usássemos essa ideia de forma instrumental para vermos até que ponto é que ela nos pode ajudar a descrever uma sociedade. O passo seguinte será, portanto, a descrição. Depois virá a análise, mas antes disso temos que discutir critérios de descrição. Muito mais poderemos vir a ver que a noção de estrutura social é capaz de ser muito problemática. Mas esse tempo ainda não chegou. O que nos deve interessar de imediato é ver se ela nos ajuda a descrever a sociedade, sobretudo a nossa sociedade.

A sociologia recorre a muitos conceitos para dar substância à ideia de estrutura social. Fala de camadas sociais, classes sociais, meios sociais, estratificação e muitos mais. Não vamos poder abordar todos esses conceitos aqui, pois não se trata de aulas. Trata-se, isso sim, de abordar um problema metodológico muito sério que consiste na dificuldade de encontrar termos apropriados para a descrição da nossa própria sociedade. Por exemplo, conceitos como etnia/tribo, religião, região, grupo linguístico, urbano, rural, língua materna, entre outros, têm alguma utilidade para a nossa tentativa de descrever a nossa sociedade? Ou por outra, de que maneira se estrutura Moçambique? Pela região? Religião? Etnia? Nível de formação? Nível de urbanização? No fundo é isso que pretendemos com o recurso à noção de estrutura social. Estamos à procura dos critérios que nos vão permitir descrever a nossa sociedade.

A questão, talvez, seja de saber exactamente o que significa procurar critérios de descrição da nossa sociedade. Vamos ter que discutir isso ao longo das próximas semanas. Por enquanto, deixem-me apenas dizer o seguinte: quando fazemos recurso à noção de estrutura social e dizemos, por exemplo, que os crentes católicos ocupam uma posição privilegiada na nossa sociedade estamos no fundo a dizer que a religião católica contém algo que confere uma certa vantagem às pessoas que a professam. Estamos, provavelmente, a dizer que a religião se relaciona com atitudes, opiniões e convicções. Estamos a dizer que a religião é uma propriedade muito importante na nossa sociedade. Descrever, neste sentido, consiste em procurar identificar os elementos dessa propriedade que dão substância à nossa sociedade.

Estamos apenas a começar. O percurso não vai só incluir textos sobre o conceito. Sempre que possível, e à semelhança da discussão sobre o crime, vou comentar notícias de Moçambique para ilustrar a utilidade (ou não) dos conceitos.

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