quinta-feira, janeiro 18, 2007

A mãe de todos os problemas

Li a notícia que se segue na página "Imensis Moçambique". Achei-a interessante.

“Número de desempregados registados aumenta 90%
2007/01/16

Depois do anúncio oficial de que a economia nacional tinha previsões de crescimento em mais de sete porcento, o que pressupunha um aumento da pujança económica do país os níveis de desemprego dispararam de forma vertiginosa atingindo a fasquia de 90 por cento em relação à 2005, em Maputo.

`Os níveis de desemprego subiram muito de 2005 ao ano passado´, disse Francisco Manusse Júnior, delegado do Instituto Nacional de Emprego e Formação Profissional (INEFP) a nível da capital, Maputo.

Acrescentou que `há dois anos a sua instituição recebeu pouco mais de 1000 pedidos de emprego e, no ano passado, viu-se a braços com 10.090 candidaturas que representa uma subida de 900 por cento.

Francisco Júnior indicou ainda que, no ano passado, a sua instituição atendia dez pessoas por dia que pretendiam ser registadas como candidatas ao emprego. Destes, explicou, apenas 140 candidatos, sendo 119 homens e 21 mulheres conseguiram ter colocação . Em Dezembro inscreveram-se 625 candidatos à assalariados, 441 homens e 184 mulheres.

`São todos candidatos indiferenciados´, disse aquele delegado para dar a entender que nenhum deles tem uma formação profissional ou académica de relevo. A pressão do custo de vida, que começou a se agravar com a subida da inflação a partir de Setembro tem levado estes concidadãos à recorrerem ao INEFP como forma de poderem ter uma fonte de rendimento. `Ninguém se importa com uma área específica de trabalho, apenas querem trabalhar´, continuou a fonte para quem a não integração destes candidatos está relacionada com o facto de empresas que absorvem mão-de-obra pouco qualificada terem fechado ou mudado de vocação, tais são os casos do sector do cajú e da Texmoque só para dar alguns exemplos.

`Há falta de empresas para absorver esta massa laboral´, lamentou e referiu que este ano o número de candidatos vai aumentar ainda mais e que, `sabemos que existem mais desempregados que não estão inscritos no INEFP, mas estamos a começar a divulgar que nós existimos e que as pessoas podem se dirigir à nós apesar desta falta de empresas´.

Sendo o INEFP adstrito ao Ministério do Trabalho e alimentado por fundos públicos, Francisco Júnior disse que uma das formas da instituição dar à volta a situação é a promoção de auto-emprego e deu alguns exemplos bem sucedidos na Catembe e na Ilha da Inhaca.

Na Catembe `gastámos 204.000 MTn na promoção da criação de aves de capoeira como galinhas e patos onde iniciou-se com a produção de 2000 pintos envolvendo 700 mulheres´. Enquanto isso, na ilha da Inhaca iniciou-se um projecto envolvendo 96 mulheres vendedeiras de peixe. `Comprámos um frigorífico para conservar o pescado. Financiamos a aquisição de 10 suínos estando 8 prenhas o que significa que o efectivo poderá aumentar em mais 90 crias´.

Referiu que este ano `vamos continuar a investir na promoção do auto-emprego para jovens utilizando fundos públicos que são alocados à nossa delegação´, explicou.

Os candidatos à emprego inscritos no INEFP são de todas as faixas etárias, dos 16 aos 60 anos...”

Um dos nossos maiores problemas no país é sabermos por onde começar. Está tudo a arder. Ninguém tem a resposta para esta pergunta, mas a vocação das ciências sociais pode ser uma tentativa de resposta. Podíamos começar por interrogar a forma como definimos os outros problemas. E insistir nisso, dia após dia. O problema do desemprego, por exemplo. É mesmo problema de desemprego? Como é que as pessoas que se ocupam do assunto sabem que se trata mesmo de problema de desemprego? É só ver a pobreza das suas estatísticas e da forma como lidam com elas. É só prestar atenção à forma como descrevem o problema. “Candidatos indiferenciados”; “falta de empresas para absorver esta massa laboral”; “promoção de auto-emprego... para jovens”; “sabemos que existem mais desempregados que não estão inscritos no INEFP, mas estamos a começar a divulgar que nós existimos e que as pessoas podem se dirigir a nós apesar desta falta de empresas” (para quê, Meu Deus, para quê?). Que problema é que eles estão a tentar resolver? Falta de emprego? Falta de formação? Falta de investimento? Falta de oportunidades no campo? Falta de uma distribuição racional de mão-de-obra pelo país? Falta de ideias? Fantasia? Imaginação?

4 comentários:

Anónimo disse...

Quem pensa Moçambique? Quem faz Moçambique? Começaria assim as minhas contribuições neste blog, este ano.
Por muito tempo venho acompanhando as suas boas intervenções. Críticas e "cheio de soluções" epistemológicas. Mas então, já pensou se o que diz inspira os fazedores da opião pública bem como os tomadores de decisões? Mas antes, de certeza que tem o conhecimento da correlação de forças entre o grupo hegemónico que toma decisões em Moçambique: Partido Frelimo, Governo de Moçambique (que é da Frelimo) bem como os Doadores, donos do dinheiro.
Se chalhar seria interessante questionar se, o que a Governadora de Maputo diz publicamente corresponde às suas ideias ou às imposições de um grupo ou dalguém.
Se calhar, seria interessante questionar se o nosso Governo, à semelhança do Grupo dos Doadores, já começa a pôr a responsabilidade do desemprego dos jovens nos próprios jovens (eles são culpados porque não são empreendedores; ao governo cabe criar "condições favoráveis para o investimento. Portanto, se os jovens estão desempregados, os culpados são eles, nós apenas iremos construir escolas e institutos profissionais-Ah, já agora, o famoso Plano estratégico do ensino profissionalç assim o diz!).
Será este receituário moçambicano ou exógeno à ele?
Parafraseando à sua questão, o que queremos acabar na verdade?

Elísio Macamo disse...

caro egídio, obrigado pelos seus comentários. são oportunos. bem gostava de saber se o que digo tem algum impacto nos decisores, mas essa não me parece a questão central. o essencial, para mim, é dar subsídios aos jovens cientistas sociais para reflectirem criticamente sobre o que lhes é revelado como a verdade. algo me diz que só com uma esfera pública crítica - ao estilo da mentalidade sociológica que carlos serra gostaria de ver emulada - é que os decisores políticos e os fazedores de opinião vão ganhar prudência analítica. é um longo caminho.

Anónimo disse...

Claro que é um longo caminho. Todavia, também é um longo caminho para os políticos, aliás os decisores perceberem que a "Pobreza Absoluta" não se combatem com "ACÇÕES QUE VISAM REDUZIR", mas sobretudo com "ACÇÕES QUE REDUZEM" essa pobreza. E aqui, precisamos de acertar as agulhas. Políticos e cientistas sociais parecem estar a falar algo de incompatível.
Quando um cientista social aborda uma coisa que o político não está interessao, é curioso ouvir: "ISSO É ACADEMIA. Nós queremos acções! Vamos directo ao assunto"
Isto é deveras desmotivante para pessoas que também se julgam ter papel nesse país. Ademais os políticos asseveram "vai falar isso láaaa...na academia!

Elísio Macamo disse...

percebo. na verdade, não são só os políticos que dizem isso. os jornais estão cheios de pronunciamentos dessa natureza. as fracas análises que fazemos são manifestações disso. a nossa aversão por perguntas, perguntas críticas, incisivas, que interpelam o conteúdo das coisas, também é manifestação de uma esfera pública pouco interessada na reflexão crítica. penso que se o hábito de reflectir for um bem em si próprio, não haverá muitas razões para nos sentirmos desmotivados. e o caminho é mesmo longo.