terça-feira, janeiro 15, 2008

Decisões difíceis (2B)

O lado moral da questão

Uma das coisas que me fascina em relação ao senso comum é a sua resistência aos padrões estéticos dos que sabem tudo melhor do que os outros. Assim, do ponto de vista estrictamente musical, o que malta Azagaia, Gprofam, Ziqo, MC Roger faz não é música, dizem os peritos. Só que isso não impede o senso comum de se deleitar com essa não-música; “Fama show” é uma violação grosseira da criatividade artística, dizem os peritos. Só que isso não impede o senso comum de ficar estático lá no cinema África. E por aí fora. Parece que estamos aqui perante uma situação clara de dissonância entre o que é verdade, por um lado, e a dificuldade de a reconhecer, por outro. Isto é o que os peritos diriam. Dito de outro modo, parece que a nossa situação é de existência de algo que transcende o indivíduo por ser universal, mas não é reconhecido pelos indivíduos.

Mais especificamente, os peritos estão perante um problema bicudo. Por um lado, eles podem partir do princípio de que a beleza é algo essencial, descontextualizado e que vale para além de sensibilidades locais. Reconhecer isso seria uma questão de educação individual até todo o mundo saber e agir de acordo com esse conhecimento. Por outro lado, contudo, os peritos podem partir da suposição de que a beleza é relativa e se, por ventura, há convergência é porque um padrão se impôs sobre os outros. Daí surgiria, talvez, a necessidade de evitar que essa convergência ocorresse. Eles diriam, com efeito, que a questão aqui não é de que as moçambicanas não-negras sejam mais bonitas do que as outras; a questão é que a sociedade tem padrões de beleza que conferem vantagem a elas pelo que, pelo bem da auto-estima negra, devia se quebrar com esses padrões. O argumento é mais complexo do que isto. Na verdade, a ideia central seria de que não existe, no fundo, uma qualidade essencial do que é belo; é tudo relativo no sentido em que cada grupo social ou contexto social tem os seus padrões estéticos que determinam a avaliação que se faz de um indivíduo. O problema, no caso das “misses”, seria simplesmente um problema de como quebrar a imposição de um único padrão sobre os demais.

Muito bem, mas em que medida é que isso ajuda a minha filha, namorada ou amante negras que concorrem para “Miss Moçambique”? Como é que faço para fazer ver a esses “parvos” todos que mandam mensagens a votar na moçambicana não-negra que eles estão sob o efeito ideológico de uma conspiração estética contra os negros e a atentar contra a nossa auto-estima? Sugerir concursos segregados? Proibir a participação das não-negras? Dar-lhes um “handicap” inicial de alguns pontos negativos? Vedar-lhes a participação?

Como podem facilmente depreender, não estou a responder à questão levantada sobre o que há de relativo na beleza. Nem sei como responder, francamente. Estou, isso sim, a levantar questões morais sérias que me parecem centrais para a nossa esfera pública. O que estamos dispostos a fazer em defesa dos nossos padrões estéticos ou como forma de evitar a imposição de padrões externos? Parece que houve, recentemente, a sugestão de proibição de radiodifusão de certos conteúdos musicais. Pois bem, com que base? Tanto quanto pude depreender, uma parte do debate ficou pela defesa ou não da liberdade de expressão. Mas será só isso que está em jogo? A simples sugestão de proibição não levanta mais nenhuma outra questão, como por exemplo, o que estamos dispostos a fazer em defesa ou promoção dos nossos padrões estéticos? Será que padrões estéticos são mesmo padrões estéticos? É possível discutir estética sem levantar outro tipo de questões? Lembram-se da discussão despoletada pelo artigo de Carlos Serra Júnior sobre a composição “maboazuda” de Ziqo? O que estava ali em questão? Devo dizer que a discussão entre Carlos Serra Jr. e um tipo cujo nome já esqueci (Saturnino, creio), mas que me disseram ser também jurista e que publicou a sua resposta a Serra Jr. no Zambeze, foi uma das melhores (e mais inteligentes) discussões que houve na nossa esfera pública recentemente. Cada um deles esgrimiu argumentos substanciais e confrontou esses argumentos ao invés de atacar pessoas em contraste com o próprio compositor, Ziqo, que, ao que parece, disse em entrevista na televisão que toda a discussão resultava de inveja.

É difícil saber o que significa dizer que a beleza é relativa porque há muita coisa que não sabemos sobre a nossa sociedade. Esse é o tema da minha próxima postagem.

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