domingo, janeiro 27, 2008

Xithlangu I

O sexo dos anjos

Prometi, ao comentar a caricatura da minha posição em relação à música de Azagaia pelo jornalista Machado da Graça (ler aqui), que ia iniciar uma nova rubrica com o nome de Xithlangu (escudo). Anunciei que essa rubrica teria como objectivo identificar e criticar atentados contra a nossa integridade intelectual. Vou, então, dar o pontapé de saída com uma reflexão sobre a noção de sexo dos anjos. A língua portuguesa utiliza esta noção para caracterizar uma discussão irrelevante ou supérflua no lugar de questões prementes. Durante muito tempo utilizei também esta expressão sem grande interesse em conhecer a sua origem. Tudo quanto sabia era que se tratava de uma referência a um debate que envolveu intelectuais em tempos lá idos que tanto os tomou que eles não se deram conta de que a sua cidade estava a ser invadida por forças inimigas. Daí a expressão discutir o sexo dos anjos enquanto a cidade está a arder.

Procurei informar-me melhor e descobri que o meu conhecimento sobre o assunto era de facto bastante fragmentado. Na verdade, há várias coisas que a nossa imaginação mistura e concentra nessa expressão. A discussão sobre o sexo dos anjos é de longa data e envolve várias questões, todas elas de grande interesse para uma atitude crítica na sociedade. Existe o debate de contestação do Cristianismo que se baseia na exigência de estabelecer o sexo dos anjos para demonstrar a racionalidade (ou não) da fé. Os que defendem esta linha de argumentação dizem que se Deus enviou os anjos à terra e lhes deu aparência humana eles tinham, forçosamente, que ter um dos dois sexos: masculino ou feminino. Como podemos ver, não é uma pergunta supérflua, pois trata-se de estabelecer a facticidade de alguma coisa. Critérios! Outros até articularam essa preocupação com o sexo para saberem de que maneira se reproduzem os anjos. Como os humanos? Aqui também vemos que a questão não é supérflua. Suponho que a nossa rapidez em concluirmos que as pessoas que discutiram essa questão fossem idiotas prende-se ao facto de, gozando da vantagem que nos é conferida por séculos de racionalismo científico, sabermos que anjos não existem. Ora, as pessoas envolvidas nesse debate nesses tempos não tinham essa certeza, ou melhor, tinham a “certeza” de que anjos existiam. Através da reflexão que fizeram foram descobrindo que a sua convicção em relação à existência de anjos era problemática. Portanto, a sua reflexão não foi de todo supérflua.

Isto torna-se ainda mais evidente em relação ao prolongamento desse debate através da inclusão de Aristóteles, o grande filósofo grego. Contrariamente ao que veio a ser a posição oficial da Igreja, Aristóteles mantinha a ideia de que os Homens têm a capacidade inata de apreender o mundo pela razão. A Igreja, recorde-se, partia do princípio de que símbolos eram mais importantes do que o que eles representavam justamente porque supunha que as pessoas não fossem capazes de compreender a verdade na base das coisas. A Igreja insistia na necessidade de as pessoas simplesmente aceitarem a Verdade. A discussão bizantina sobre a iconoclastia – a destruição de ícones – tinha esta base epistemológica. Opunha os que queriam que se aceitassem verdades sem nenhum investimento racional pessoal e os que diziam, na linha de Aristóteles, que é preciso fazer esse investimento. Era uma discussão eminentemente política, mas também epistemológica, e, sobretudo, uma discussão relevante para as coisas da vida. O facto de Constantinópolis ter sido tomada pelo exército Otomano enquanto senadores, teólogos e filósofos discutiam o sexo dos anjos não torna essa discussão irrelevante, sobretudo se tomarmos em linha de conta que a definição do inimigo e do perigo que é eminente é do pelouro da razão e não da emoção. Em Moçambique justificou-se Nkomati com base na ideia do “cerco” do Apartheid. Se tivesse havido debate aberto e sério sobre o país naquela altura é bem possível que Nkomati talvez não tivesse sido necessário ou, a ser necessário, que tivesse assumido outro tipo de contornos. O relato que Jacinto Veloso faz no seu livro de memórias revela, em minha opinião, a falta que fez a discussão do sexo dos anjos para uma melhor tomada de decisão. A Frelimo agiu, ao invés de discutir o sexo dos anjos, e mesmo assim o país ardeu!

No debate de ideias sobre o desenvolvimento de Moçambique aparece esta acusação de vez em quando para questionar a legitimidade de reflexões diferentes das daqueles que acham já terem definido os problemas do país exaustivamente. Tudo o que não encaixa nas acusações de corrupção, na perfídia dos governantes e no saque das nossas florestas é considerado discussão do sexo dos anjos. Dado que a discussão bizantina sobre o sexo dos anjos tinha como pano de fundo o papel da nossa razão na nossa capacidade – e possibilidade – de apreender o mundo, não consigo perceber a utilidade que esta acusação tem para a nossa esfera pública. Justamente porque os problemas do nosso país são tão complexos e prementes precisamos, creio, de mais gente disposta a abalar os nossos pressupostos. Quem sabe quais são os verdadeiros problemas do nosso país? Quem pode impedir outros de procurarem definir para si esses problemas ou, pelo menos, certificarem-se de que a definição que outros oferecem é mesmo plausível? Quem pode determinar o ponto onde a reflexão intelectual deve parar para dar lugar à acção? Porque não deixar a acção para os políticos e defender o direito dos intelectuais de discutir o sexo dos anjos?

O nosso país arrancou mal em 1975 porque algumas das pessoas que tomaram o poder pensavam que todos quantos não vissem os problemas do país na mesma óptica que a dos detentores do poder estavam a discutir o sexo dos anjos. Ainda não recuperamos dessa folia. O que é supérfluo e o que é essencial na discussão do futuro do nosso país? Quem define isso? Porque é que um académico pode ter medo de discutir tudo com a abertura que os desafios enfrentados pelo país exige?

Levantem o xithlangu (escudo) todos aqueles que são acusados de debater o sexo dos anjos quando ousam ir contra a opinião maioritária! Insurjam-se da tirania dos que acham terem definido os problemas para todos e para todo o sempre! Deixem o país arder, se for necessário, e procurem usar a vossa razão para determinar o problema!

Abaixo a intolerância!

2 comentários:

chapa100 disse...

deixar o pais arder e procurar a razao, espero nao estares a devolver a tirania para "o pensamento".

Elísio Macamo disse...

"procurem usar a vossa razão...". mas tens razão. o pensamento também pode ser tirânico, sobretudo se fica petrificado e não se abre a alternativas. meu deus, estamos rodeados de tiranias!