Continuo com a série sobre decisões. Achei o debate muito estimulante. Penso que vale à pena continuar a discutir estas questões. Algo me diz que precisamos muito deste tipo de reflexão.
Poder secreto
Quem manda em Moçambique? Será mesmo a Frelimo? Ou forças invisíveis que ao estilo tipicamente moçambicano são visíveis para quem quer ver? Não se preoucupem que não estou a ressuscitar a discussão sobre a intervenção social e o engraçado argumento segundo o qual não é necessário fundamentar nenhuma acusação, pois quem quer ver pode ver que estamos entregues aos corruptos. A minha preocupação é outra. É verdade que ela, em certa medida, tem a ver com essa discussão, sobretudo na vertente que diz respeito ao que nos podemos permitir fazer após a leitura que fizermos de uma determinada situação. Explico-me, mas com uma pergunta: quando é que os fins justificam os meios?
O meu balanço pessoal dessa discussão consiste, entre outras coisas, na convicção de que para alguns de nós os fins justificam os meios. Uma vez que a minha reflexão tem como objectivo desmascarar os que têm poder, mas usam-no para proveito próprio, e contribuir para a melhoria das condições de vida da maioria deserdada, estou justificado em me servir de todo o tipo de recursos – de entre os quais contaria argumentos mal formulados – para esse fim supremo. Max Weber, o grande sociólogo alemão, chamou a isso de ética da convicção. Sem me dar conta estou a entrar nos detalhes do problema moral antes mesmo de o expor.
O problema que quero expor é simples. Imaginemos um grupo empresarial forte e poderoso no nosso país que está envolvido na exploração descarada de mão de obra baratíssima – quase escrava – em vários pontos do país. Não interessa muito saber o que o grupo faz; na verdade, faz um pouco de tudo; turismo, agricultura, comércio e indústria. O que importa realmente saber é que esse grupo tem fortes ligações com o poder e, por isso, suspeitamos, pode se permitir violar as leis. Quando os trabalhadores se queixam dos maus tratos, o grupo suborna os juízes; o grupo paga um subsídio de deslocação ao deputado local para fazer visitas aos seus eleitores; quando o governador começa a falar muito, o grupo queixa-se ao chefe lá em cima – que também não pode falar muito porque foi feito sócio de alguns empreendimentos do grupo – a dizer que ele está a hostilizar o grupo e pôr em perigo a luta contra a pobreza e o empreendedorismo. Em suma, é um grupo poderoso, que age a seu bel prazer no país, ignora tudo e todos, explora os pobres dos moçambicanos com toda a impunidade que o poder lhe confere.
Vamos, então, supor que alguns de nós ganhamos a forte convicção de que analisamos muito bem o problema e que sem nenhuma sombra de dúvidas podemos dizer que tudo quanto suspeitamos é verdade. E decidimos agir. Primeiro, publicamos artigos na imprensa independente a criticar com virulência os desmandos; paralelamente, fazemos composições hiphop também a repetir essas críticas. Segundo, organizamos manifestações defronte da sede desse grupo – que é uma lojinha pequenina numa das esquinas da baixa de Maputo – e envolvemo-nos em escaramuças com a força de intervenção rápida que vem nos dispersar – mas nós sabemos que está sob as ordens do grupo através dos seus contactos políticos. Terceiro, alguns de nós começamos a pensar em formas de protesto mais violentas e algumas das pessoas que iniciaram o percurso connosco começam a vacilar e perguntam-nos se a violência é a solução, ao que nós respondemos com a pergunta: afinal de que lado é que vocês estão? Os mais radicais vão adiante e começam a atirar pedras contra tudo que se possa identificar com o grupo; outros até lincham funcionários do grupo com o famoso pneu reservado aos “ninjas”.
É tudo em prol de um sistema político mais íntegro. Nunca em nenhuma parte do mundo se fez uma omolete sem antes se partir o ovo. A minha pergunta é: quando é que os fins justificam os meios?
2 comentários:
Elísio.
Indiscutivelmente, um tema premente para nós.
Bastaria pensar nos últimos episódios da blogosfera para justificar a pertinência.
Não gosto de debater assuntos sem antes me informar melhor. Nessa busca de informação deparei-me com este debate similar aqui:
http://agguinaldopavao.blogspot.com/2007/05/os-fins-justificam-os-meios.html
Um abraço.
caro patrício, dei uma vista de olhos à referência que me mandaste. há lá pontos de vista interessantes. não pensei na vertente maquiavélica. a minha reflexão vai mais para o lado de jeremy bentham como verás no próximo texto. interessante, apesar de tudo.
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