segunda-feira, janeiro 14, 2008

Decisões difíceis (1C)

O lado sociológico

O lado moral da questão é o mais difícil. Em minha opinião ele é difícil porque há tanta coisa que não sabemos. O que não sabemos depende do nosso conhecimento sociológico, isto é do trabalho que a sociologia moçambicana ainda tem pela frente. Qual é a base da acção individual? Qual é o contexto normativo dentro do qual os moçambicanos agem? Quando é que julgamos uma acção normativamente boa ou má? Os critérios que usamos para avaliar a moralidade de uma acção são os mesmos? O que vale para um campesino vale também para um citadino? O que vale para um indivíduo do norte vale também para indivíduos do centro e do sul? O que vale para um membro de uma igreja pentecostal vale também para um membro de uma igreja católica, metodista ou mesmo para um muçulmano? O que vale para um membro ou simpatizante de um partido da oposição vale também para um membro ou simpatizante da Frelimo? O que vale para um membro ou simpatizante da Frelimo oriundo do norte e de religião católica, vale para um membro e simpatizante da Frelimo oriundo do sul e de religião muçulmana? E o que significa “valer”?

Que entendimentos do Estado e seu papel na sociedade existem no nosso país? Como é que esses entendimentos se manifestam na forma como avaliamos normativamente a acção de outros? Onde começa e termina a nossa responsabilidade em relação aos outros? Onde começa e termina a responsabilidade do Estado em relação a todos nós? Que considerações normativas e culturais é que influenciam a nossa percepção sobre a responsabilidade individual e estatal? Que contextos estruturais enformam a nossa sensibilidade normativa e como é que ela varia? Quando é que a responsabilidade do Estado é mais forte na minha abordagem de questões normativas? Será quando estou mal na vida? Ou quando estou bem na vida? Será talvez quando me quero livrar das exigências de familiares menos afortunados? Ou quando quero responsabilizar um partido político?

Como é que se formulam exigências aos outros no nosso contexto? Com recurso a discursos metafísicos do género dos perigos que podem advir da falta de respeito aos espíritos? Com recurso a discursos ideológicos sobre a justiça social, corrupção e igualdade de oportunidades? Quem formula estas exigências, em que contextos e com que objectivo? Quais são as vantagens de uma ou de outra abordagem na formulação de exigências? Que instâncias normativas existem na nossa sociedade e que tipo de discursos é que elas promovem?

Quando é que se é rico em Moçambique? Quando é que se é pobre em Moçambique? Que obrigações vêm com a riqueza em Moçambique? Quem define essas obrigações? Que direitos vêm com a pobreza em Moçambique? Quem define esses direitos? E, claro, vice-versa. Que direitos têm os ricos e que obrigações têm os pobres? Até que ponto é que essas obrigações e esses direitos criam um espaço de debate moral na nossa sociedade? Até que ponto é que esse debate pode ser constitutivo de uma esfera pública responsável e genuinamente moçambicana? Até que ponto é que essa esfera pública pode dar substância à própria política?

Como podem ver, há muita coisa que não sabemos sobre a nossa sociedade. Tenho em mim que esse conhecimento, porém, é essencial para qualquer decisão normativa bem como para a tomada de posição. Não me parece suficiente dizer apenas “ah, o ex-ministro devia aplicar o dinheiro em coisas sociais mais responsáveis”. Porque é que ele deve aplicar o seu dinheiro em seja o que for? Porque ele, colocando a lei de parte, não pode simplesmente fazer rolos de papel higiénico com o dinheiro que tem e usá-lo? Porque tem que ajudar seja quem for? Já agora, porque não? Que implicações é que isso tem para o país e para a nossa sociedade? E, acima de tudo, em que medida é que qualquer das respostas que eu der a estas perguntas me compromete na minha acção como indivíduo e moçambicano? O que posso exigir dos outros? O que os outros podem exigir de mim? Posso exigir dos outros? Os outros podem exigir seja o que for de mim?

Não estou, como devia ser óbvio, a sugerir a ideia de que enquanto não soubermos tudo isto não podemos responder à questão de saber se é má ideia ou não ajudar cães. Estou apenas a dizer que precisamos de reflectir sobre algumas das implicações que as respostas que vamos dando encerram dentro de si.

2 comentários:

AGRY disse...

Tenho lido as suas últimas postagens com muito agrado.
Infelizmente Moçambique debate-se, sobretudo ao nível do desenvolvimento económico e do progresso social , com enormes dificuldades.
Mas é neste terreno agreste que se assiste ao desabrochar e/ou à consagração dum novo escol de moçambicanos intelectualmente lúcidos e atentos.
É na sua companhia que, na medida do possível, vou acompanhando e reaprendendo a conhecer um país que também considero meu.

Elísio Macamo disse...

caro agry, obrigado. acho mesmo que precisamos de persistir na ideia de que o terreno agreste pode dar alguma coisa. a poeira já assentou. voltámos ao essencial. forte abraço!