quarta-feira, janeiro 09, 2008

O que acho desse trabalho (5)

Este é o penúltimo texto...

Que perguntas não fiz e deveria ter feito?

Tantas, mas muitas mesmo. Só que, lá está, em relação a quê? Para já, não me lembro de jamais ter visto este tipo de textos a serem acompanhados de perguntas no blogue “Diário de um sociólogo” pelo que acho a pergunta estranha. Os textos, sobretudo os problemáticos, são sempre apresentados como a revelação da verdade. Que perguntas é que ainda podem ser feitas? Quando alguém coloca perguntas nos comentários a resposta vem, tarde ou cedo, em forma de aforismo como que a penalizar o atrevimento. Assim, é deveras difícil perceber o que se pretende com esta pergunta sobre as perguntas que deviam ter sido feitas. Por quem e para quê? Desde quando é que se fazem perguntas para coisas que até um professor universitário português confirma?

Mas isto é maldade da minha parte, como sempre – acrescento – dada a minha apetência pelo poder. Que perguntas é que o sociólogo não fez e deveria ter feito? Depende do que ele pretendia com a publicação. Se ele queria simplesmente mostrar mais uma análise que diz as coisas que ele aprova, não precisa de fazer perguntas. Para quê? Se ele quer chamar a atenção para certos aspectos teóricos ou metodológicos que por ventura são relevantes para a acção que é necessária para salvar os deserdados, aí pode fazer uma série de perguntas sobre o estatuto de certos conceitos utilizados no texto bem como da própria abordagem teórica do autor. Mas tudo isto é claro para quem toma a actividade sociológica a sério pelo que não consigo perceber o sentido da pergunta.

Acho que uma maneira útil de responder a esta pergunta e, porque não, dissipar algumas dúvidas que ainda persistem no seio dos auto-intitulados seguidores do autor do TPC sobre o papel da academia na sociedade é de reflectir um bocado sobre o que a sociologia – assim como qualquer outro ramo das ciências sociais – pode fazer em jeito de intervenção social. Aqui estamos perante uma distinção que se faz entre pesquisa pura e pesquisa aplicada. Enquanto que a pesquisa pura tenta melhorar os nossos instrumentos aprimorando conceitos e teorias, a pesquisa aplicada incide sobre problemas práticos da sociedade. Há muita afinidade entre os dois empreendimentos. Contudo, é também evidente que há muita confusão em torno desta distinção. Os que pensam que querem agir acham que os que lhes aconselham cautela querem ficar na sua torre de marfim, portanto, a fazer simplesmente pesquisa pura ou básica (não me vou referir a outros tipos de motivações porque esses já foram descobertos: a minha megalomania e o meu puxa-saquismo, por exemplo). Esta maneira de ver as coisas não é correcta. Mesmo no ramo da pesquisa aplicada, portanto, a pesquisa que tem como objectivo tornar a ciência directamente relevante e útil à prática (acção), podemos distinguir três vertentes que precisam de ser separadas para o bem da própria intervenção social. Alguns dos problemas dos “críticos” hostis ao “rigor científico” estão directamente ligados à confusão que fazem em torno destas vertentes. A pesquisa aplicada não se julga pelos resultados práticos, mas sim pela sua intenção. O importante é o que os decisores (incluo aqui todo o tipo de utente dos resultados de uma pesquisa) podem ou querem fazer com os resultados dessa pesquisa.

A pesquisa aplicada pode ser descritiva, analítica ou avaliativa. Em tempos publiquei textos aqui sobre as consultorias que recuperavam alguns aspectos desta classificação. Os que me acusam (na verdade, a mim e ao Patrício Langa) de estarmos preso na torre de marfim podiam, para seu próprio benefício, ler estes textos para ver que algumas das reacções à crítica que fazemos do activismo de académicos são bastante simplistas. A pesquisa é descritiva quando usa os instrumentos científicos para caracterisar um determinado fenómeno em toda a sua complexidade. Isto é importante porque há muita coisa que não sabemos muito bem. Ai do sociólogo que parte do princípio de que está tudo claro, ai dele. Um dos grandes problemas do combate à criminalidade em Maputo, por exemplo, é esta falta gritante de conhecimento sobre o fenómeno conforme escrevi aqui em tempos.

No caso do texto do professor universitário português há interesse em descrever o ajustamento estrutural, a filosofia neo-liberal e as elites políticas do país. O jornalista britânico, Joseph Hanlon, tem bons estudos sobre isto; eu próprio tenho textos publicados; Anne Pitcher, Anders Nielsen e Abrahamsson, Judith Marshall e uma série de outras pessoas. Carlos Castel-Branco tem descrições destas coisas. Também o Egídio Vaz Raposo escreveu uma tese interessante de licenciatura sobre este assunto. Colocar perguntas num sentido aplicado dirigido à descrição seria, por exemplo, procurar saber que aspectos dos conceitos sugeridos pelo professor universitário português são relevantes para conhecermos o verdadeiro alcance do que ele quer dizer com a sua tese segundo a qual as elites locais seriam o resultado de um projecto global de dominação. Um exemplo recente, e bom, de uma pesquisa descritiva foi o relatório de Catherine Mackenzie sobre a exploração dos recursos florestais na Zambézia. Um dos seus calcanhares de aquiles foi a confusão que fez entre descrição e análise conforme expliquei nesta postagem aqui e que, quanto a mim, induziu algumas pessoas em erro quanto ao que era necessário fazer.

A pesquisa é analítica quando ela procura articular diferentes aspectos de um problema ou, mais directamente, quando ela estabelece uma relação entre conceitos. Que relação existe entre o ajustamento estrutural e o sistema político? Quais são os aspectos que precisam de ser tomados em consideração? Como é que essa relação se manifesta na prática? Muitas vezes esta pesquisa analítica tem como objectivo proporcionar aos que tomam decisões – do lado governamental como do lado da oposição e da sociedade civil – uma base sólida para poderem tomar uma decisão. Pessoalmente, tenho proporcionado a algumas organizações da sociedade civil em Moçambique e noutros quadrantes, mas também a organismos oficiais nacionais e internacionais, reflexões ao nível analítico. Quem toma as decisões são eles, eu só lhes digo o que penso estar em questão a partir da articulação que vejo entre os conceitos. No caso do texto do professor universitário português podíamos analisar mais de perto a relação que ele estabelece entre ajustamento estrutural e formação de uma elite nacional; podíamos investigar a relação entre elite nacional formada nestas circunstâncias e seu compromisso com os problemas do povo. A pesquisa da Oficina de Sociologia sobre os linchamentos podia ser enquadrada neste tipo de pesquisa analítica se não fosse a pressa que os investigadores têm de demonstrar que existe privatização de justiça – uma conclusão que diz muito pouco conforme tentei discutir aqui. Tenho em mim que os resultados daquela pesquisa servem pouco ao Ministério do Interior e, acho, mesmo à Liga dos Direitos Humanos, supondo que a acção que se tem em mente seja a não oficial. Aquilo é o contrário do que os activistas pensam estar a fazer melhor do que os “filósofos” como agora somos chamados por alguns. Ao lerem isto, não se esqueçam que estou envolvido numa batalha para assumir a liderança da sociologia em Moçambique. Patrício Langa vai ser secretário-geral até que ele também me derrube com a ideologia do “rigor científico” ou, simplesmente, com uma longa lista de coisas que não critiquei.

Finalmente, temos a pesquisa que avalia. Isto é, ela avalia o impacto de certas políticas, acções e medidas na sociedade. O texto do professor universitário português encoraja-nos, de facto, a avaliarmos, por exemplo, o impacto das políticas de ajustamento estrutural na sociedade, sobretudo no sistema político nacional. Esta questão da avaliação é muito importante, pois muito do desabafo que anda por aí é resultado da ausência de uma cultura de avaliação alicerçada em critérios mais ou menos consensuais. Por exemplo, o Presidente da República disse no seu discurso sobre o Estado da Nação que este último era bom; observadores disseram que não. Machado da Graça, por exemplo, escreveu numa das suas crónicas que havia linchamentos, manifestações e outras coisas, portanto, o estado da nação não podia ser bom. Ambos têm razão, seremos tentados a dizer, mas é evidente que isso não é possível. Se ambos têm razão nós estamos a pensar mal ou, o que é mais provável, eles estão a falar de coisas completamente diferentes. Que critérios é que uns e outros usam para avaliar o estado da nação? É possível chegar a um acordo sobre esses critérios? Na verdade, estas são as questões levantadas pelo texto de Noé Nhantumbo e que, no interesse da discussão responsável dos problemas do nosso país, precisariam de ocupar a nossa atenção como académicos. Ao sermos referidos ao texto de Nhantumbo no blogue “Diário de um sociólogo” teria sido útil, por exemplo, chamar a nossa atenção para este convite que o artigo nos faz de reflectirmos sobre isso. Acho bastante pertinente para essa discussão o que Júlio Muthisse escreveu num comentário aqui sobre a responsabilidade na esfera política.

Então, mais uma vez, o problema não é que perguntas é que deveriam ter sido feitas. A pergunta é o que se pretenderia com a publicação de um determinado artigo. Dependendo da resposta a esta pergunta podemos decidir se o interesse era mesmo de suscitar algum debate responsável sobre alguma coisa e, a ser esse o caso, se queremos privilegiar perguntas do âmbito da pesquisa pura ou perguntas do âmbito da pesquisa aplicada. Peço-vos para terem presente que estas preocupações se referem à reflexão que um sociólogo moçambicano responsável pode fazer perante tais textos. Não exijo nada disto ao professor universitário português, ao Azagaia, Gprofam, Custódio Duma ou Noé Nhantumbo. Exijo isto aquele que nos ensinou a duvidar de verdades simples no decálogo do sociólogo.

Peço aos que se consideram seguidores de Carlos Serra para não tentarem influenciar a avaliação que ele vai fazer do meu desempenho. Se ele me reprovar estou mal. Reconheço que, conforme um comentador anónimo bastante divertido escreveu no blogue do Patrício Langa, uma pessoa de cabelos brancos, com tanta experiência e conhecimento nunca pode estar enganada. Eu sou um simples invejoso ao serviço de causas políticas obscuras. Contudo, a sociologia é tudo quanto tenho. Não vivo para a sociologia. Vivo da sociologia. Por favor!

7 comentários:

Anónimo disse...

Tenho lido com muito prazer os teus textos e deles muito aprendi. devo, contudo, sublinhar que nestes últimos dias fico intrigado com alguns dos seus escritos. Acredito que tem muita coisa por nos ensinar mas acho que esse exercicio deve ser feito num clima de tolerancia e de respeito mútuo. fico com a sensação de que as últimas postagens não são daquele Dr. Macamo que o ví pela primeira vez no ISPU (numa palestra bem concorrida). conheci um homem esclarecido e humilde por isso não compreendo como pôde ter se envolvido num exercicio pouco digno para si. tenho respeito pelos intelectuais moçambicanos e acho bom que se interpelem mas não aprecio a forma que os Drs. Macamo e Langa adoptaram destes últimos contra a figura do Carlos Serra.
obs: não sou sociólogo mas acho que há exageros do lado do Dr. macamo!!!
Jorge

Anónimo disse...

....adoptaram nestes últimos dias...Carlos serra

Elísio Macamo disse...

caro jorge, obrigado pelo seu comentário. agradeço-lhe, sobretudo, a forma sincera e digna como me interpela. tomara que outros que não concordam com o meu procedimento me interpelassem da forma como o fez. lamento que os últimos textos tenham feito baixar o apreço que tinha pelo meu trabalho. infelizmente, o mal já está feito. eu reagia a atitudes que achei pouco dignas de um colega cujo trabalho em prol da sociologia sempre respeitei e continuo a respeitar. eu compreenderia se o colega ignorasse o que eu escrevo ou simplesmente não estivesse de acordo comigo. isso é normal. contudo, ao longo do tempo fui vendo as minhas ideias e posições caricaturadas de uma maneira que não se faz em sítio nenhum, que eu próprio nunca fiz, nem mesmo para pessoas que me não são simpáticas. fui sendo chamado nomes pouco dignos de uma relação sã entre colegas na academia, o último dos quais foi "fogoso sociólogo". isto tudo foi na sequência de eu ter defendido uma outra atitude em relação ao papel da academia. o que fiz ao longo destes textos foi tentar mostrar, através do debate de ideias, que é possível confrontar posições. o excesso de ironia levou-me por vezes a exageros na colocação dos assuntos, mas assumo a responsabilidade disso em defesa de uma outra visão do papel da sociologia no nosso país. se tiver tempo percorra, por favor, os dois blogues e veja a forma como as minhas ideias e posições foram sendo (mal) representadas no outro blogue. veja também se em algum momento representei mal as ideias do colega mesmo quando as criticava, como é natural na academia. leia os aforismos lá publicados e compare-os às posições metodológicas que tenho defendido neste blogue. vai ver que, na substância, há razões para insistir num debate aberto e frontal sobre estas coisas. com estes textos quiz trazer esse debate à superfície e retirá-lo do mundo das insinuações para onde foi sempre confinado no outro blogue. onde poderemos divergir vai ser na questão de saber se a minha reacção devia ter sido mesmo assim. deixo isso ao seu critério bem como de outros leitores. sinto-me, após a publicação desta série de textos, muito mais aliviado. se as insinuações continuarem e se persistir a má representação das minhas ideias e posições não vou precisar de repetir o que aqui escrevi. permito-me corrigir uma impressão errada: não é contra a figura de carlos serra que tenho escrito estes textos; é contra o seu entendimento de cultura académica e respeito pelos colegas. não vai encontrar em nenhum dos meus textos ataques a pessoas; ataques às ideias que essas pessoas têm encontrará muitos. se esses ataques forem feitos no respeito pela apresentação correcta dessas ideias, não vejo nenhum problema de maior. continue a visitar o blogue; verá que o momento polémico já quase passou.

Anónimo disse...

professor! Muito obrigado pela humilde resposta. Com ela fikei aliviado e encorajado a continuar fazer deste blog um poço onde possa beber e me recordar do que vivia quando estudante.
Ah, permita-me que lhe informe k aproveitei tanto das tuas "consultorias". Trabalho em uma organização na qual sou sempre chamado a abstrair e as tuas consultorias me são úteis. Não me envie factura, por favor...
Jorge

Elísio Macamo disse...

caro jorge, de nada. eu agradeço a sua compreensão. por vezes é bom ter pessoas que nos ajudem a acalmar os ânimos. gostaria, porém, de lhe enviar uma factura pelo que pode aproveitar dos meus textos. não é monetária, não se preocupe. peço-lhe, assim como peço a todos quantos visitam este blogue ou participam em discussões, que dêem mais importância ao que as pessoas dizem. apesar de tudo, essa é que é a essência do que estamos a fazer. não deixemos que a nossa frustração individual pela lentidão com que as coisas andam na nossa terra nos torne intolerantes a pontos de vista diferentes sobre o ritmo que as coisas deviam ter. vamos partir do princípio de que estamos todos interessados no bem da nossa terra a partir de perspectivas diferentes, mas com razão de existirem. se achamos que essas perspectivas são problemáticas vamos dizê-lo abertamente no espírito de responsabilidade que deve caracterizar o nosso compromisso com o país. nenhum de nós detém a chave da felicidade dos moçambicanos. só na confrontação de ideias é que vamos fabricar algo parecido com essa chave. reconheço que talvez não devesse ter deixado as coisas chegarem a este ponto. espero, contudo, que pessoas de boa vontade como o jorge aproveitem esta discussão para reflectir sobre o tipo de atitude que precisamos de ter para darmos a nossa contribuição para o país. não é altura de nos decidirmos se queremos ficar de um ou de outro lado. não há lado de carlos serra e lado de elísio macamo. quando muito, há o lado do compromisso com o debate responsável de ideias e o lado irresponsável. eu estou aberto à negociação dos termos desse debate responsável. com estes textos tentei mostrar que isso é possível e desejável. se aceitar a factura fico em dívida consigo em relação a uma coisa: comprometo-me a, tal como no passado, nunca, neste blogue ou em qualquer outro escrito, caricaturar argumentos de colegas e atacar essas caricaturas. comprometo-me, também, a distanciar-me publicamente de gente que se auto-intitula minha defensora quando essa gente ultrapassa nas suas contribuições ao debate os limites do que qualquer um de nós considera decente.

Anónimo disse...

k factura! essa é factura é pesada! Dar importancia ao k as pessoas dizem... Isso é muito complicado porque significa pensar e pensar doi, ao menos se tivesse "anastegesico" para conter a dor.
e para dificultar mais, a factura que o professor me envia, não requer um pensar só por pensar, há que observar regras. respeitar essa estória de neutralidade axiológica de Max Weber e companhia. factura bem cara!

Tudo bricadeira, prometo tentar pagar a factura embora assuma as minhas dificuldades nessa matéria. me tranquiliza o facto de saber que o professor não exigirá muito de mim, afinal não desponho dos intrumentos analíticos como os do professor.jorge

Elísio Macamo disse...

força!