O que distingue Bessa de Azagaia, Gprofam, Duma e Nhantumbo?
Estamos agora no cerne da questão. O que distingue o professor universitário português dos moçambicanos promovidos pelo blogue “Diário de um sociólogo”? A intenção da pergunta é, obviamente, retórica. Devemos responder “nada” ou então dizermos “bom, o facto de um ser professor universitário português e os outros serem ‘tudo coisa e gentes nossas’, mas na essência estão a dizer a mesma coisa”. Se as coisas fossem assim tão simples! Infelizmente, elas não são assim tão simples. E isto começa logo nos termos de comparação que discuti já na primeira postagem. Não faz sentido comparar um professor universitário com músicos; não faz sentido comparar músicos com juristas e jornalistas. São registos diferentes, exigências diferentes e contextos também diferentes. Reconhecer estas diferenças é essencial para uma participação responsável na esfera pública sem, contudo, diminuir a importância que as várias formas de expressão têm nos seus contextos particulares.
Mas há mais. Pelo conteúdo do que escreveu o professor universitário português depreendo que se trate de alguém que argumenta a partir de uma posição marxista ou neo-marxista com alguma inclinação para ser receptiva ao que a escola da dependência ou a teoria do sistema-mundo dizem. Só isto coloca o professor universitário português num patamar diferente dos outros em termos de como podemos apreciar o seu argumento. Faço questão de realçar que não estou a dizer que isso torna o seu argumento melhor do que o argumento de Duma ou de Nhantumbo. Não, não é isso. Torna-o radicalmente diferente na medida em que só esse enquadramento teórico fornece os critérios para a avaliação do seu argumento. Eu podia discutir com o professor universitário português com referência ao que o seu quadro teórico diz e tentar mostrar, se fosse o caso, que ele está em contradição com esse quadro. Se ele reconhecer que há discrepância e for bom académico, pode se ver obrigado a reflectir melhor as suas premissas ou mudar a sua conclusão de que modo que ele encontre sustento nessas premissas. E essa é a essência do debate académico.
Não sei como enquadrar Custódio Duma e Noé Nhantumbo teoricamente, tanto mais que há diferenças fundamentais entre os dois. Também não estou a dizer que a plausibilidade do que eles dizem depende necessariamente do seu enquadramento teórico. O texto de Custódio Duma está inacabado. Consiste apenas de uma série de conclusões categóricas que tentam mostrar que os governantes querem manter o povo ignorante para que este não conheça a verdade e não goze a liberdade. Essa verdade é umas vezes apresentada como o conhecimento que se obtém na escola, e só na escola, outras vezes como o que se aprende em contextos formais e informais, e mais outras vezes como a capacidade de perceber a perfídia dos governantes. Mas por vezes é também liberdade ou a própria liberdade é a verdade. Portanto, é um texto que faz pouco sentido, o que não significa que ele não esteja a abordar questões importantes da nossa vida e que Custódio Duma não tenha o direito de se exprimir livremente. Um dos seus apoiantes aconselha-me a criticar o sistema que não foi capaz de lhe ensinar bem. Independentemente de quem é culpado pelo resultado, a mim interessa por enquanto esse resultado, o que, também, devia retirar a pessoa do Custódio Duma do centro da discussão e colocar no seu lugar o texto que ele escreveu.
Não há como comparar estas denúncias com o argumento claro e estruturado do professor universitário português. Mas lá está, se por validade de conteúdo o blogue “Diário de um sociólogo” entende tudo aquilo que diz o que está mal no nosso país, então aí não tenho como dizer não. Até estaria disposto a dar a discussão por terminada por ausência de base comum de diálogo. E para que ninguém me interprete mal, não quero de nenhuma maneira dizer que o jovem Custódio Duma ele próprio seja medíocre. O texto que ele produziu é medíocre. A sua reacção deselegante aos que o criticaram – secundado por auto-intitulados defensores – revela a extensão do mal que a irresponsabilidade de alguns académicos está a criar. É possível que os que dizem que o seu texto é medíocre queiram apenas cair nas graças do poder – eu não me importava de ser ministro de alguma coisa, sobretudo se a situação é como é descrita pelos “críticos”; ia lá, enriquecia, e não tinha mais que me esconder... e se fosse Presidente da República passava um decreto a exigir que todos concordem comigo – mas isso não vai alterar a questão central que é a qualidade do que ele escreveu. O facto de eu ser da Frelimo, de Gaza ou da Renamo não implica que ninguém me vai ligar se eu gritar que a casa está a arder. Ninguém vai querer se queimar só para mostrar que está contra a Frelimo ou contra a Renamo.
O texto de Noé Nhantumbo é diferente do de Custódio Duma e muito mais próximo, na estrutura, do do professor universitário português. É um argumento denso, mas que se pode reduzir à constatação de um fosso entre o discurso e a acção, por um lado, e a ausência de espaço de problematização desse fosso devido aquilo que ele chama de promiscuidade dos poderes. A conclusão para a qual ele reflecte este fosso e a ausência de espaço de discussão é a de que o povo vai perder a confiança em todo o sistema. Para mim, este é um conteúdo válido pelas mesmas razões que me levam a considerar o argumento do professor universitário português válido: trata-se de uma conclusão que assenta em premissas claras. E da mesma forma que posso discutir o argumento do professor universitário português, posso também discutir o argumento de Noé Nhantumbo. E se ele for tão responsável quanto a estrutura do seu argumento, se eu lhe mostrar que as suas premissas não apoiam o seu argumento, ele vai de certeza mudar de opinião. Que mais se pode esperar de uma discussão?
Não obstante, continuo a achar estranho que a pergunta tenha sido colocada nestes termos. Será mesmo que o autor das perguntas não viu as diferenças? Ou será a tentativa de ganhar uma discussão por excesso de generalização? E aqui volto a insistir num pormenor: não acho útil incluir músicos neste tipo de comparação. O autor do blogue “Diário de um sociólogo” não pode estar a querer dizer que a prova de que o país vai mal é que mesmo Azagaia ou Gprofam dizem que o país vai mal. Que ele diga que o país vai mal porque mesmo um professor universitário português, Custódio Duma ou Noé Nhantumbo dizem isso, vá que não vá. Mas músicos? Não é que músicos não possam dizer coisas plausíveis. O problema é que as regras de enunciação nos contextos em que eles evoluem são diferentes e menos rigorosas. Lá, sobretudo no estilo musical que eles privilegiam, o que interessa muitas vezes é a rima. O que rima está certo, mas no debate sério de ideias o que rima não está necessariamente certo.
Portanto, há muita coisa que distingue Bessa de Duma e de Nhantumbo, sobretudo Bessa de Duma e menos Bessa de Nhantumbo. Entre Bessa e Azagaia e Gprofam não há termos de comparação. Mas há também muita coisa que os une, sobretudo a Bessa, Duma e Nhantumbo, a saber o direito que nós todos temos à razão. Bessa e Nhantumbo não violaram este nosso direito à razão porque nos apresentaram um argumento que nos convida à discussão e à reflexão. O autor do blogue “Diálogo de um sociólogo”, em contrapartida, violou o nosso direito à razão ao nos referir ao texto inacabado de Custódio Duma. Continua a violar o nosso direito à razão convidando-nos a comparar alhos e bugalhos.
Aqui reprovei mesmo, mas espero que Sua Excelência o Camarada Presidente da República esteja a ler para ver o serviço que estou a prestar à causa!
3 comentários:
Onde andam os “críticos”? Poderiam ajudar o prof. na correcção do TPC. O ideal é que produzissem textos sistemáticos que justificassem a nota atribuída. Não é pedagogicamente correcto atribuir uma nota aleatoriamente, sem explicar o seu sentido. É que estamos habituados a ler recadinhos por via de aforismos irónicos ou TPC como o que o Elísio, afincadamente, se pôs a responder. Porque não interpelar os argumentos, assim, sistematicamente em nome de um debate aberto? Se para ler levamos o tempo que levamos, imaginem o tempo gasto pelo E.M a pensar e escrever este texto respondendo o TPC. No mínimo poderiam dizer qual o julgamento que fazem das respostas dadas as questões.
Dr. Patrício Langa e Elísio Macamo,
para que a vossa campanha está a surtir efeitos. No blog do Prof. Carlos Serra, já são raros os comentários e o mesmo o autor do blog parece que está perdendo forças. Incluindo muitos outros blogueiros, estão com medo de cometer erros de argumentação e lógica. Cuidado desaparecerem todos os blogs ficarem os vossos. Que belo trabalho terão feito para a FRELIMO, se tal acontecer serão ministro de alguma coisa no próximo mandato. Parabéns!
caro patrício, não há razões para desesperar. o silêncio não é grave. grave seria se as insinuações continuassem da mesma maneira. aí eu também não teria como continuar a debater. grave é a insistência nas pessoas, e não ideias, como o magupela aqui faz. como dizia senghor, parece mesmo que a razão é grega e a emoção negra.
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