Não vou poder colocar nenhuma postagem a partir de quinta feira. Tenho mais uma "decisão difícil" que só lá para o meio da próxima semana vou colocar para discussão. De cá até lá só vai dar para discutir o que está postado.
O lado sociológico
A questão que o problema das “misses” nos coloca é actual no nosso país. Existem desigualidades na nossa sociedade. Elas se manifestam ao nível regional, político, económico, racial, religioso, cultural e por aí fora. Dependendo do lado do igual onde cada um se encontra, interpretamos essas desigualidades de maneira positiva ou negativa. Assim, certas coisas são por culpa dos brancos, do sul, dos mulatos, do norte, dos pretos, etc. E o que é curioso é que muitos de nós sentimo-nos à vontade com esse tipo de afirmações. Só depois de ter filhos “mulatos” é que comecei também a ter problemas com afirmações que se ouvem frequentemente entre nós do estilo “as mulatas são vacas” ou “os mulatos são ladrões”. Porque é que isso não me incomodou tanto no passado quanto passou a incomodar-me mais recentemente?
Do ponto de vista sociológico o problema que as “misses” nos colocam é de saber como explicar a desigualidade e o que fazer para que ela desapareça ou, pelo menos, deixe de ser relevante no nosso quotidiano. A primeira questão está muito mais próxima do que a sociologia pode abordar com alguma possibilidade de sucesso. A segunda é mais para os políticos. Na verdade, num primeiro momento o que a relatividade da beleza levanta como questão é a existência de desigualidades no país que são sentidas pelas pessoas ao mesmo tempo que levam algumas a sentir a necessidade de fazer alguma coisa. Mas como diz um ditado inglês que, traduzido, vai assim “não tentes consertar o que não está estragado”, antes mesmo de podermos fazer seja o que for para abordar essas desigualidades precisamos de saber o que está estragado na nossa sociedade. Isso pressupõe um conhecimento mais apurado da nossa estrutura social – que não temos e está um pouco na base dos problemas que temos com o combate ao crime; pressupõe também sabermos quem se encontra aonde nessa estrutura social, como é que ela se constituiu, como é que se pode chegar aonde nessa estrutura e, naturalmente, que mundos se abrem, ou fecham, a partir de que lugar nessa estrutura. Este é um conjunto de questões relevantes.
Existe outro conjunto também não menos importante e que tem a ver com os nossos padrões de consumo. Quem define os padrões estéticos na nossa sociedade? De que maneira? Que influências são determinantes na constituição desses padrões? O que significa a aderência a esses padrões para cada um de nós? Quem tem interesse em aderir? Porque se adere? É possível ficar alheio a esses padrões, simplesmente ignorá-los? Quem faria isso? A que preço ou, porque não, com que vantagem? Que formas de vida, visões do mundo e hábitos de consumo se articulam com a aderência a certos padrões? Mesmo politicamente, já que questões políticas interessam a mais gente, podíamos procurar saber que padrões estéticos podemos identificar com que tipo de orientação política. Não estou a sugerir que nos interessemos por saber se um membro da Frelimo iria preferir uma “miss” moçambicana não-negra ou negra, porque, francamente, não sei que resposta iríamos obter. Refiro-me muito mais à coexistência de fontes de julgamento moral e estético no interior de um partido, por exemplo da Frelimo, e que se manifestam pela existência de gente com forte socialização protestante ou católica – será a diferença entre Guebuza e Chissano? – ateísta e secular, tradicional e moderna. Será que isso ajuda a perceber posicionamentos políticos? Não sei, mas a pergunta parece-me interessante.
Então, como veem, não estou a levantar a questão das “misses” no nosso país tanto mais que essa questão não me parece existir. Estou, isso sim, a perguntar o que estrutura – ou devia estruturar – as nossas discussões sobre gostos. Sei que a ideia de que gostos não se discutem está fortemente enraizada entre nós. De qualquer maneira, pergunto se caso houvesse interesse em discutir gostos, com que base o faríamos? Não serão os posicionamentos rígidos que por vezes vemos na nossa esfera pública um resultado da ausência de reflexão sobre como poderíamos discutir gostos? Se quisermos, no nosso país, introduzir leis de discriminação positiva – acção afirmativa, por exemplo – com que base o faríamos? Porque seria justo – seria? – optar por um engenheiro moçambicano do norte em concorrência com um do sul e com as mesmas qualificações no preenchimento de uma vaga? Porque, já agora, alguém acha ser legítimo privilegiar alguém da sua própria região em coisas que são do pelouro público? Reparem, mais uma vez, que não estou a dizer se uma ou outra coisa são más; o que estou a perguntar é o que está por detrás de uma ou outra coisa e se é possível discutir isso.
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