quarta-feira, janeiro 09, 2008

O que acho desse trabalho (6)

Último texto da série.

Seria possível um outro tipo de abordagem? Se sim, qual?

Claro que seria possível um outro tipo de abordagem. A realidade é tão complexa, porque não seria possível um outro tipo de abordagem? Claro que seria. Qual? Várias abordagens, na verdade. E isso depende de muita coisa, incluíndo as nossas preferências político-ideológicas. Por vezes tenho a impressão de que quem tem uma atitude activista em relação à actividade científica pensa que recusar reflectir para o benefício dos que detêm o poder significa abandonar o rigor científico na reflexão para os deserdados. Portanto, perguntar se seria possível um outro tipo de abordagem não me parece fazer muito sentido. Mas lá está outra vez o problema de perguntas retóricas. Seria possível um outro tipo de abordagem? A resposta que devemos dar é “não, as coisas estão mal que é impossível não criticar, não dizer que está tudo mal. Está todo o mundo a criticar: professor universitário português, Azagaia, Gprofam, Custódio Duma e Noé Nhantumbo. Porque será? É porque as coisas estão mal; só quem está feito com o sistema ou ainda espera dele beneficiar é que se pode permitir o luxo de insistir noutras abordagens”.

Perguntas deste género não nos levam a sítio nenhum. São políticas como o Patrício Langa muito bem sugeriu em vários dos seus escritos no seu blogue, mas também induzem muita gente bem intencionada em erros graves sobre o que a actividade científica é. A simples sugestão de que só há uma maneira de ver as coisas é problemática. Ela serve, estranha e contraditoriamente, à ideia de que há uma verdade cuja descoberta é o objectivo da ciência. A necessidade de proteger essa verdade (em forma de conclusão) é capaz de ser responsável pela hostilidade que alguns manifestam em relação ao “rigor científico”. Mas reparem que a insistência nos critérios de validade não diminui o número de abordagens possíveis. Antes pelo contrário, é a partir desses critérios que podemos apreciar a complexidade do fenómeno e, por via disso, sermos receptivos a várias maneiras de ver o mundo. A visão neo-marxista do texto do professor universitário português é uma; a visão neo-liberal dos “arautos do pensamento único” é outra; e estas duas visões não esgotam o assunto. Podíamos olhar para a forma como a escassez de recursos estrutura o jogo político; podíamos analisar os efeitos da abertura do sistema político sobre o processo de diferenciação social em Moçambique; podíamos, até, analisar o impacto que críticas mal formuladas têm na atitude que os governantes têm em relação à sociedade. Tantas abordagens, meu Deus, tantas!

Prefiro reprovar nesta pergunta por omissão.

Passo para as considerações finais.

Tentei mostrar aqui que a discussão que temos vindo a manter sobre a crítica social, intervenção social e cultura académica não pode ser útil enquanto houver um entendimento problemático do que nos distingue como académicos. Não somos melhores do que os outros, somos simplesmente diferentes e temos certas exigências a cumprir. Isto não significa que os outros que têm também coisas a dizer se devam submeter ao nosso pensamento “dogmático”. Não obstante, enquanto preferirmos o populismo de apagarmos as diferenças que existem entre discursos diferentes sobre a mesma realidade, por exemplo, as óbvias diferenças entre o professor universitário português e Custódio Duma, Azagaia e Gprofam, dificilmente seremos capazes de reconhecer o mal que estamos a fazer ao nosso próprio país, à cultura crítica e aos deserdados que tanto queremos ajudar. Porque pensamos que um bocadinho mais de ciência faz mal às causas que defendemos?

O mundo é complexo e não aceita facilmente moldar-se aos nossos esquemas ideológicos. Acabo de ler, no “Diário de um sociólogo”, uma citação atribuída a um sociólogo de nome Martin Shaw que diz o seguinte: “A produção de ideologia é, portanto, em geral, a produção de ideias dentro da estrutura intelectual das relações sociais existentes, de uma forma que obscureça a totalidade da qual fazem parte e, assim, a possibilidade de alterar essas relações.” Esta é, para mim, uma definição bastante cínica do conhecimento. E pergunto: como é que os “críticos” conseguem escapar ao poder totalitário da ideologia? Como é que eles conseguiram ver que eu estou a ser também ideológico? O que permitiu ao próprio sociólogo Shaw ver as artimanhas da ideologia? Magia ou o método científico? Eu acho que isto é fazer de contas que estamos a fazer ciência. O remédio contra a ideologia não é relaxarmos o nosso rigor metodológico e sermos nós também mais ideológicos; o remédio é prestarmos ainda mais atenção ao método, critérios e rigor científico. Sei que sou suspeito para dizer estas coisas todas depois do que se descobriu a respeito das minhas verdadeiras intenções. Digo-as apenas na esperança de que haja alguém por aí interessado em avaliar a substância do meu argumento, independentemente das minhas intenções ocultas.

Aceito que chamem a isto de arrogância; se calhar é; aceito que me acusem de não estar interessado no povo; se calhar não estou mesmo; aceito que digam que estou a puxar-saco; há muito que faço isso, por enquanto sem grande êxito, mas não desanimo; um dia serei director nacional, ministro ou seja o que for que ninguém me deseja; pode ser até num outro tipo de governo, pois com toda a manha argumentativa que aprendi vou saber puxar-saco devidamente; aceito que me digam que o que estou a dizer só serve na Europa; é por isso que o auxílio ao desenvolvimento não é de África para a Europa, mas ao contrário; aceito que me chamem fogoso, mandarim, academicista, intelectual barato, oportunista, partidário, político, intriguista, etc., pois como dizia Victor Hugo, na ausência de argumentos, palavreado agressivo também ajuda. Aceito tudo isso se for por estar a defender a necessidade de haver critérios claros de discussão e crítica e, acima de tudo, insistir que gente responsável os observe. Também aceito esses nomes todos porque tenho a convicção de que gente que não atribui importância a estas coisas – ao rigor científico – não pode saber do que está a falar. Portanto, não faz nem mesmo a mínima ideia do que esses nomes todos significam já que os critérios não importam.

Sei que reprovei no TPC, mas a última vez que dei respostas para agradar ao professor foi nos bancos da escola secundária de Chokwé. Depois disso nunca mais fiz isso (exceptuando, é claro, os pequenos serviços de bajulação que presto ao nosso partido), nem mesmo nas aulas de estudo político; sempre respondi a todas as questões que me foram colocadas segundo o que a minha cabeça me disse ser correcto (as excepções estão já anotadas). Uso o mesmo princípio para analisar o país, independemente do que pensa seja quem for (idem). Não é bem a mesma coisa, mas, modéstia à parte, Sócrates também tomou o veneno em plena consciência do que estava a fazer. E, sinceramente, veneno dado pelos “críticos” eu tomava sem pestanejar, pois com a sua hostilidade ao método nunca iriam saber se os ingredientes que misturaram são os mais apropriados. Só doces é que não aceitava, pois aí o perigo era mesmo grande de ser intoxicado. Mas se calhar vou ter mesmo que tomar o veneno para pagar por todas as intenções políticas que andei a esconder (mal) dos meus estudantes e colegas.

Fim. Por mim, até de toda a discussão (sobretudo se houver comentários críticos, pois a esses não vou responder como é sobejamente conhecido). Agora regresso ao que me interessa. Sociologia, aliás, política. Enfim, é tudo mesma coisa. O essencial é puxar-saco.

Deprimente.

3 comentários:

Egidio Vaz disse...

O Profesor voltou!
Hoje não irei comentar sobre o que escreveu aqui. Irei fazer um balanço, ainda que preliminar, sobre o que se perdeu, aliás, o que perdi ao longo de todos esses dias de 'conversa de pássaros'. Alguém pode me dizer se a linguagem dos pardais é compreensível aos ouvidos de um ser humano normal?
Uma das razões que me levam a ler os artigos do Prof Macamo, mesmo estando nalguns casos a discordar deles, é que me obriga a ir ler. Ler mais, para pelo menos saber mais, seja do assunto, ou, como tem sido sempre, procurar razões iguais para discutir com os pressupostos enuanciados.
E sinto que o Prof há muito que não fazia. Mas, nunca é tarde. Caso para dizer, O Professor voltou.
Estamos aqui ao lado, a ler e reler seus textos com interesse e dsejo de aprender mais.
Faltam-me apenas 7 meses para estar de volta!
Abraços.

Aguiar disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Elísio Macamo disse...

caro egidio, nunca me ausentei, sempre estive aqui a debater ideias. se tivesse tempo entregava-me à tarefa de perceber a linguagem dos pardais. creio que é possível decifra-la. basta apenas a vontade de se entregar ao trabalho. com método! se não conseguir, tendo usado método, saberei porque não consegui. pensar doi, mas é também simples.