segunda-feira, setembro 10, 2007

Da utilidade prática da pesquisa social empírica (1)

Pontapé de saída

Tentei recentemente namorar um amigo que trabalha na Electricidade de Moçambique para me desenrascar uma consultoria. Foi a propósito de uma notícia que li há duas semanas, segundo a qual o Conselho Coordenador do Ministério da Energia teria debatido, futilmente, o problema do roubo de cabos eléctricos que está a custar à empresa perto de 500 mil dólares por ano, se não estou em erro. É muita mola e isso levou-me a supor que a empresa não se importasse de gastar mais um bocadinho para saber de um cientista social um pouco mais sobre o assunto. O meu amigo apenas encolheu os ombros e não voltamos mais a tocar no assunto.

Contudo, a coisa continua a interessar-me. Não só porque preciso mesmo de melhorar a minha vida, como também pelo facto de que o assunto constitui um desafio muito grande às ciências sociais. Já digo porquê. Antes, porém, gostaria de chamar a vossa atenção para a notícia que reproduzo a seguir e que mostra que o problema é bem mais complexo do que o roubo dos cabos eléctricos sugere. Não se trata, afinal, apenas de fornecer o sector artesanal informal como um estudo realizado há alguns anos por uma empresa privada de consultoria constatou. Trata-se de um contexto institucional frágil generalizado que proporciona, provávelmente, as condições de possibilidade da coisa. Leiam a notícia:

EDM desmantela mais de 100 ligacões clandestinas

05/09/2007

A Electricidade de Moçambique (EDM) desmantelou, nos primeiros seis meses do ano em curso, mais de uma centena de ligações clandestinas de energia eléctrica, na cidade de Xai-Xai, capital da província de Gaza.

Os dados foram tornados públicos pela direcção da Electricidade de Moçambique naquela cidade, durante as celebrações dos 30 anos desta empresa pública.

De acordo com a directora daquela instituição em Xai-Xai, Maria Quipiço, são, ao todo, 126 casas que recebiam clandestinamente a corrente eléctrica.

Por outro lado, a EDM alertou a população a tomar maior atenção aos supostos burladores que fazem ligações do QUADRILEC, um sistema de fornecimento de energia a baixo custo.

Maria Quipiço disse ainda que no lugar dos 330 meticais legalmente exigidos para a legalização da documentação para o fornecimento da energia eléctica, alguns electricistas de má fé cobram elevadas somas em dinheiro, alegando ser para facilitar a sua instalação.

O fenómeno das ligações clandestinas é conhecido em quase todos os países em desenvolvimento. Melhor ainda: este fenómeno é muito frequente em países com instituições oficiais frágeis, sobretudo aquelas que dizem respeito à observação da ordem e segurança. Não constitui, porém, explicação para o fenómeno dizer apenas que este contexto é o culpado de tudo. Precisamos ainda de saber porque certas pessoas (e que tipo de pessoas) optam pelo roubo de cabos e pela ligação clandestina. Ou seja, precisamos de entender o fenómeno em toda a sua complexidade, e isso inclui o indivíduo como membro da sociedade. Sei que estou a falar como um especialista moçambicano: precisamos de estudos mais aprofundados com ar grave, voz séria e sobrolho franzido. Como um douto, portanto... Entender o fenómeno em toda a sua complexidade é mais fácil dito do que feito. O que significa? E depois de entendido, que subsídios poderemos esperar dar à sacrificada Electricidade de Moçambique?

O meu namoro não resultou, mas mesmo assim quero reflectir sobre este assunto durante as próximas postagens. Não vou dar nenhuma solução, pois não tenho nenhuma. Nem sei se há solução para o problema. Todavia, gostava de reflectir sobre o que estes problemas significam do ponto de vista do meu entendimento da sociologia ou das ciências sociais. Que desafios nos colocam? Antecipo desde já a resposta: o roubo de cabos e as ligações clandestinas levantam o problema das perguntas que colocamos quando estudamos alguma coisa e, mais importante ainda, o que fazemos com as respostas que obtemos. E mais: o exercício de reflexão que faço em torno destas questões leva-me a supor que o problema principal seja a própria EDM e não, como poderíamos legitimamente supor dadas as circunstâncias do nosso País, o sector informal, a fragilidade institucional ou mesmo a quebra de valores morais na sociedade.

Vamos, juntos, pensar no assunto. Se alguém depois conseguir convencer a EDM a financiar uma consultoria, exijo um dízimo. Ou talvez não, pois uma vez que o meu entendimento da sociologia me faz alinhar contra os desfavorecidos da sociedade a incapacidade da EDM de resolver este problema seria – marxistamente falando – funcional à preservação da ordem social já que os pobres vão se contentar em apenas roubar cabos e fazer ligações clandestinas. Enquanto fizerem isso não vão pensar em revolução...

2 comentários:

Bayano Valy disse...

Podíamos até ampliar o campo de análise se fosse necessário para talvez consubstanciar a ideia de se estar perante um país com instituicões frágeis. Por exemplo, reporta-se com frequência a existência de garimpeiros ilegais em alguns pontos do país onde se suspeita haver ouro, sendo a maioria deles provenientes da Tanzania, e alguns dos países vizinhos. O que se reporta é que tudo isso, incluíndo os perigos ambientais que resultam do uso do mercúrio, acontece son olhar das autoridades. Aliás, o que amiúde acontece é prendê-los e recambiá-los, mas o que acontece ao ouro? Será que o nosso Estado tem alguma estratégia para pôr cobro a esta situação e mais outras? Algo tinha que ser feito tanto não seja porque há danos ambientais que precisam de ser enfrentados sob risco de se colocar aínda mais essas fragilidades a nu.

Elísio Macamo disse...

sem dúvidas que podemos ampliar o estudo. a questão para mim é a seguinte: que pergunta devemos colocar? e depois de colocada a pergunta o que fazemos com as respostas obtidas? batemos palmas? ou interpelamos a qualidade da pergunta colocada? porque é mais interessante saber o que acontece com o ouro do que, por exemplo, saber qual é o papel dos camponeses moçambicanos nas zonas afectadas? ou outra pergunta qualquer? na próxima postagem reflicto sobre perguntas e respostas.