E depois?
Em tempos escrevi aqui e aqui sobre a explicação. Sugiro que leiam esses textos antes de prosseguirem. Eles são a base da reflexão que vou fazer logo a seguir. O problema que quero abordar agora tem a ver com a estabilidade da explicação que damos de um determinado fenómeno. A ideia central de explicação na ciência positivista é de que procuramos formular leis. Essas leis é que nos permitem, então, arrumar as nossas observações analiticamente. O estudo da Oficina de Sociologia dirigido por Carlos Serra sobre os linchamentos, por exemplo, ao concluir que este fenómeno manifesta a privatização da justiça no País, sugere uma lei. A lei sugerida é de que quando o sistema público de justiça não funciona, a justiça é privatizada. Foi partindo deste entendimento dos resultados dessa pesquisa que chamei atenção, em artigo no jornal Notícias, para a dificuldade de fazer uso prático desse resultado. A minha chamada de atenção era, na verdade, uma crítica à inconclusão do estudo, mas também um convite ao debate metodológico que é tão necessário ao fomento das ciências sociais no País. Um debate que, de preferência, devia ser directo e aberto, e não por meio de aforismos que, pela sua autoridade categórica, desencorajam o debate. Afinal, não é só o Ministro da Educação que está aparentemente contra as ciências sociais!
A minha chamada de atenção não quer dizer que os resultados de uma pesquisa tenham que ser necessariamente úteis do ponto de vista prático. Ou que o estudo em questão não tenha nenhuma utilidade. Não obstante, a dificuldade óbvia de tornar resultados da pesquisa úteis para a prática está muito ligada à própria inconclusão de um estudo. Se estou correcto na minha interpretação da conclusão desse estudo sobre os linchamentos, nomeadamente na ideia de que ela deriva de uma lei implícita, a saber que sempre que o sistema público de justiça não funcionar, as pessoas irão optar pela sua privatização, então colocaria o problema da estabilidade dessa explicação. Sabemos que o sistema público de justiça em Moçambique não funciona a contento. Estamos todos envolvidos em linchamentos em consequência disso?Existem linchamentos por todo o lado? É claro que não, nem é isso que os investigadores estão a dizer, tanto mais que chamam atenção para a vulnerabilidade particular das pessoas afectadas/envolvidas nisso. O que eles, na verdade, estão a dizer é que uma das reacções à fragilidade do sistema público de justiça vai ser a privatização da justiça por meio de linchamentos. Ou seja, a explicação, para ser explicação, circunscreve o seu próprio âmbito de aplicação. A questão, contudo, é de saber até onde esse âmbito deve ser circunscrito sem que a própria explicação se torne instável.
Vou começar de baixo. Mas repito: não há magia em ciências sociais, há apenas a reflexão metodológica que pode ser aceite ou rejeitada, plausível ou implausível. Então, será que o rigor da explicação nos obriga a conhecer cada caso de linchamento? Acho que não, muito embora este trabalho etnográfico seja crucial para a formulação da pergunta de pesquisa. Parece-me evidente que este trabalho, no caso do estudo em questão, não foi feito, com a agravante da infeliz, mas justificada, escolha de funcionários da UEM como informantes. Do ponto de vista estritamente metodológico não é, contudo, imperioso saber com todo o detalhe possível quem lincha, quem é linchado, onde e quando se lincha porque essa informação não vai alterar nada nas condições estruturais enunciadas pela lei – se a justiça pública não funcionar, haverá privatização. O que explica a ocorrência do fenómeno é este factor estrutural, razão pela qual considero o resultado desta pesquisa legítimo, ainda que inconclusivo. Se o estudo mais etnográfico constata, por exemplo, que a maioria dos linchamentos ocorre às 14 horas junto de mercados, isso não vai ajudar o Ministério do Interior significativamente, pois se aumentar a vigilância nesses locais a essas horas, os linchamentos vão simplesmente ocorrer noutros lugares, a outras horas, pois eles não resultam da falta de vigilância, mas sim das condições estruturais enunciadas pela lei. Começando de baixo, portanto, chegamos à conclusão de que o detalhe empírico torna a explicação instável pelo que precisamos de um nível de generalidade mais seguro.
Quando subimos na escala de explicação, porém, constatamos o que já vimos aqui, nomeadamente que o linchamento não é a única resposta às condições estruturais por nós enunciadas. Há pessoas que denunciam os suspeitos de crime, falam com eles ou com suas famílias, etc. Ou seja, a lei que enunciamos não é ainda a explicação do nosso fenómeno. A lei é muito mais geral, isto é, ela diz respeito a uma vasta gama de casos entre os quais se encontram os linchamentos. Entre os linchamentos e a lei enunciada precisamos ainda de mais informação para podermos formular uma regra de inferência com potencial prático. Qual é essa informação e que carácter é que a regra de inferência pode assumir? É este o problema que enfrentamos num possível estudo sobre o roubo de cabos eléctricos e ligações clandestinas: de que maneira podemos passar da constatação da imoralidade (nossa pergunta) ou da injustiça (respostas deles) para a compreensão do fenómeno roubo de cabos eléctricos ou ligações clandestinas? Gostaria de vos recordar (leiam isto) a solução de Durkheim, no seu estudo sobre o suicídio, para este problema: ele introduziu o elemento da integração social como a regra de inferência entre a estrutura e a acção individual.
Vou reflectir sobre esta questão da regra de inferência na próxima, e última, postagem com algumas provocações aos marxistas.
2 comentários:
Conforme comentei no seu post anterior, os meus colegas de campo (da área de energia) estão a acompanhar com muita expectativa esta série. Estão mais interessados na parte que fala de roubo de cabos eléctricos e ligações clandestinas.
Foi num jantar, quando comentei sobre esta série. E ainda disse que era um dos seus artigos (Só deu para confirmar que muita gente em Moçambique, conhece e lê Elísio Macamo). Acredita que só fomos dormir quase na madrugada. Cada um com as suas filosofias. Mas o que reinou como causa de roubos no geral foi: pobreza e ambição de viver como as minorias/elites (ter celular/celular caro, ter meio de transporte, habitação condigna, diversão, etc.). E acredita-se que a maior parte das nossas elites e os que andam envolvidos em esquemas de roubos de vária ordem, podem ser comparados a dois livros iguais, mas com capas diferentes.
Indicou-se pobreza, porque nos esquemas de roubo de cabos eléctricos, são usados os mais pobres. Os que se beneficiam são com certeza alguns ricos-criminos, mas quem executa o trabalho é o zé-ninguém, incluindo alguns funcionários da EDM que contribuem com know how. Quando estes são apanhados, são soltos com facilidade, visto que a polícia e mesmo a justiça são facilmente corruptíveis. Também, falou-se da Índia, onde a pobreza é extrema, mas não existiam roubos no geral. Aqui, indicou-se a moral como factor explicativo (a tradição e a religião são muito rígidas). Em fim, esperemos pela sua última postagem.
PS
Ainda sobre o 7 de Setembro, dizem que em plena cerimónia na Praça dos Heróis, o Mulembwe andou a trocar o 7 de Setembro, por 7 se Abril (tantas vezes). O que isto significa? Esquecimento mesmo? O outro facto estranho, é que uma boa parte das pessoas entrevistadas nas ruas pela STV não conhecia o significado da data. Será que as pessoas estão a perder aquele sentimento patriótico? Não será este mais um assunto que merece atenção dos sociólogos?
genito, espero não ter prometido com esta série. a minha preocupação não é de dar a solução para o problema tanto mais que não a conheço. estou mais preocupado em sugerir que o problema é identificar o problema e que a ideia que muitos de nós (incluindo os teus colegas) têm de que já sabem qual é o problema pode ser perigosa. o patrício langa sugeriu no comentário ao texto sobre a água que a empresa nem tem informação precisa sobre as suas operações. o que me espanta nestas circunstâncias é em que medida é que a edm ou seja quem for pode, nestas circunstâncias, sentir o roubo de cabos ou água como um problema. o roubo de cabos e as ligações clandestinas não me parecem ser o problema principal, embora esta seja apenas a minha hipótese de trabalho. acho que o problema está no próprio funcionamento da empresa. é nesse funcionamento onde reside, provavelmente, a chave que faz a ligação entre desiquilíbrios estruturais e comportamento individual.
sobre o 7 de setembro, alguém devia ter contado as vezes que o presidente da assembleia fez a confusão. se tiver sido 7 vezes, foi por superstição... não vejo com muita preocupação o facto de as pessoas não saberem o que essa data significa, tanto mais que seria necessário saber quem é que foi entrevistado. pode ser simplesmente uma espécie de normalização política depois daquela insistência doentia do período imediatamente a seguir à independência de nos fazer recordar essas datas.
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