quinta-feira, setembro 27, 2007

A palavra (4)

O assalto à palavra

Vou fazer um processo curto aqui. Ao invés de tentar uma dissertação erudita sobre o assunto, vou simplesmente enumerar algumas coisas que se dizem sobre os que fazem uso da palavra. A minha intenção é de mostrar que nos interstícios desses comentários por vezes maldosos se escondem verdadeiros assaltos à palavra. E digo mais: se metade da energia reservada a esses assaltos fosse direitinha ao combate à pobreza absoluta, não sei onde o país estaria hoje. Uma coisa é certa: o nosso país havia de criar muito desemprego no mundo desenvolvido...

Eu gosto de ler o que escreve fulano-de-tal, mas não concordo com tudo quanto ele diz... já li e ouvi esta frase inúmeras vezes a meu respeito, ou a respeito de outras pessoas. Algumas das pessoas que dizem ou escrevem isto fazem-no no genuino interesse de marcar a sua independência intelectual, o que é importante. Tenho, contudo, a impressão de que muitas outras fazem-no por razões que têm a ver com a natureza da nossa esfera pública. Não é aconselhável associar-se a gente que por vezes diz coisas que alguns acham incómodas para não-sei-quem. Logo, é importante marcar a distância, mas uma distância, reparem, que já não é de conteúdo, mas sim simplesmente política. Considero esta afirmação um assalto à palavra, pois a não ser que venha a propósito, uma afirmação lançada assim sem justificação e elaboração apenas nos distrai do essencial. E o essencial é uma coisa concreta que alguém disse e que vem a propósito num determinado diálogo. A “b’andhla” não permite esses recursos retóricos, pois nela só conta o que é construído lá dentro.

Não é nada disso que ele disse, esse não sabe nada... esta frase tem variações do mesmo tema, mas a essência é de uma afirmação de peso que prescinde, pura e simplesmente, da sua própria justificação. Noto na nossa esfera pública vários momentos em que pessoas que deviam saber melhor soltam esse tipo de afirmações e ficam por aí. Fico, em vão, à espera de ouvir alguém explicar porque não é nada disso. Parece-me uma manifestação de certezas em reacção a um quotidiano de certa maneira incerto. Não estou a dizer, com isto, que todas as afirmações, em todo o momento, devam ser justificadas, embora fosse, naturalmente, bom. Estou simplesmente a dizer que uma afirmação de tanto peso compromete a pessoa a proporcionar uma justificação. E se a pessoa não se sente comprometida, então estamos mal. Cada um de nós intervém publicamente convencido de que tem razão, e alguns de nós estamos na expectativa de sermos corrigidos porque nos interessamos por uma melhor compreensão das coisas. Só os parvos é que ficam agarrados aos seus preconceitos e à sua “razão”. Eu pelo menos não parto do princípio de que sei o que muita gente ignorante tem a certeza de saber.

Ele está fora/é filho de/é quadro sénior, por isso pode falar assim... aqui também não esgotei as opções. Estamos no âmbito do ataque à pessoa. O que a pessoa disse não é objecto de discussão. O objecto de discussão é a pessoa que o disse. E o objectivo deste desvio de atenções é evitar falar do que é essencial e justificar porque alguém não partilha connosco o que sabe. Este é o assalto à palavra mais deprimente que existe no nosso país. Ele documenta, isso não se pode negar, um ambiente mau em que as pessoas, de facto, têm que ter cuidado com o que dizem se não querem comprometer a sua própria posição. Ao mesmo tempo, contudo, é uma contribuição subtil, mas eficaz ao status quo. O mais engraçado para mim é que o tipo de intervenção crítica que por vezes faço torna-me interessante tanto para uns quanto para outros. Nunca teria tido algumas das propostas de trabalho que tenho tido, propostas interessantes, diga-se de passagem, se não tivesse aberto a boca da forma escancarada como o fiz. Portanto, os que não falam por acharem que não podem falar são capazes de estarem a prestar um mau serviço a si próprios.

Finalmente, fulano-de-tal é corajoso... este é o golpe final, o último prego no caixão da palavra. Um país onde dizer o que se pensa é visto como acto de coragem é um país perdido, é um país que não é merecido pelos académicos que tem. É verdade que a coragem é depois temperada pelo ataque à pessoa, estilo “pois é, ele pode falar porque...”. a verdade, por regra, é incômoda, sobretudo onde se parte do princípio de que ela é propriedade de certas pessoas. Isso é elementar. Mas não se ultrapassa essa situação aceitando o ditame dos “detentores” da verdade. Ultrapassa-se isso resistindo. E a resistência não é a crítica barata que muitas vezes lemos ou ouvimos por aí, mas sim a insistência no debate de ideias, na interpelação e num compromisso vada vez mais forte com a procura de critérios que nos permitam conversarmos. Essa é a essência da “b’andhla”. Na verdade, a “b’andhla” começou a ser desvirtuada quando a autoridade tradicional, legitimada pelo poder colonial, começou a pensar que fosse detentora da verdade, isto é, quando transformou aquele lugar de debate num lugar de confirmação de certezas. Aconteceu o mesmo com o centralismo democrático. Está a acontecer o mesmo com a indústria do desenvolvimento e com a polarização política.

Há muitos outros assaltos à palavra que não posso enumerar aqui por uma questão de economia de palavras. O único que posso dizer é que a situação é preocupante. Precisamos de repor a palavra.

Sem comentários: