domingo, setembro 09, 2007

Lixar a própria vida

Acabo de ler num jornal local que amanhã, segunda-feira, é dia internacional do suicídio. Porque não? Aparentemente, o fenómeno é preocupante. Há pessoas até que defendem a tese de que o suicídio, mais do que guerras, é que está a custar a vida de mais gente. Escrevo esta postagem para recordar um grande sociólogo francês, Emile Durkheim, o homem que, quanto a mim, tornou visível a sociedade através da sua reflexão sociólogica. As suas regras do método sociólogo são uma referência incontornável para quem queira fazer sociologia. Nesse excelente texto Durkheim defende, efectivamente, a ideia de que muita coisa que nós reduzimos ao indivíduo se explica por factores acima do indivíduo, nomeadamente factores ligados à sociedade, aquilo que ele chamou de “facto social”. Não é uma visão da sociologia que orienta o meu próprio trabalho, mas nenhum sociólogo que se preze pode se permitir o luxo de ignorar esta chamada de atenção.

Recordo Durkheim na véspera do dia internacional do suicídio para também trazer à memória um dos seus textos empíricos mais importantes, nomeadamente O Suicídio, publicado em 1897. Foi a primeira demonstração da pesquisa empírica em sociologia. Foi também, e isto é crucial, uma demonstração da própria metodologia de Durkheim de se lhe tirar o chapéu. Com efeito, Durkheim quiz mostrar com este estudo porque é que o social é mais importante do que o individual na explicação de fenómenos atinentes à vida humana. E ele demonstrou isso com um fenómeno considerado por muitos como o mais individual dos fenómenos: o suicídio. Como este texto é leitura obrigatória em todos os cursos de sociologia, não vou repetir o que todos já sabem. Vou, contudo, salientar alguns aspectos desse estudo numa tentativa de explicar porque comento criticamente o trabalho de outros e porque acho que isso é fundamental para o fomento das ciências sociais no país. Quero também com este exercício sugerir que não devemos confundir atribuição de culpas pelo que não está bem com análise social. Muitos anos mais tarde, o sociólogo americano C. Wright Mills escrevia em “A imaginação sociológica” – e Mills tinha uma orientação marxista, mas esclarecida – que fazer sociologia é articular o individual com o estrutural sem, contudo, querer dizer com isso que só assim é que se ajuda aos desfavorecidos da sociedade.

O estudo sobre o suicídio tem três aspectos que me parecem muito pertinentes para alguns debates que estamos a ter nas nossas ciências sociais. O primeiro aspecto é teórico. Durkheim concluiu que o suicídio é um fenómeno que está ligado à estrutura da sociedade. E mostrou de que maneira é assim através de correlações estatísticas que revelaram regularidades interessantes. O segundo aspecto está ligado a estas regularidades. Durkheim mostrou que elas são o resultado do nível de integração de uma sociedade. A famosa noção de “anomia” vem daí. Durkheim mostrou que níveis fracos de integração podem conduzir a altos índices de suicídio e as estatísticas que ele apresenta documentam isso. Os exemplos que ele dá são de pessoas que vivem sozinhas, não têm filhos ou família e, curiosamente, dos protestantes com a sua orientaçao mais individual do que os católicos. Reparem o que está a ocorrer aqui: Durkheim diz que a estrutura é importante, mas não fica por aí. Ele prossegue mostrando que mecanismo social é que faz com que esse fenómeno ocorra: anomia. Ou seja, ele não se contenta em apenas anunciar a relação entre estrutura e indivíduo. E mais: o terceiro aspecto deste estudo é que ele passa para uma tipologia do suicídio – egoista, altruista, anómico e fatalista – que lhe permite tornar precisa a conclusão que ele tirou.

É um excelente estudo pelo seu carácter didáctico. Se há pessoas entre vocês que ainda não leram este livro, por favor, façam-no. De preferência leiam-no ao lado das “Regras do método...” também de Durkheim. São livros excelentes. Agora, o facto de o estudo ser excelente não significa que TUDO quando Durkheim fez ou disse nesse estudo está bem. Na verdade, uma boa parte da história da sociologia é a história da tentativa de refutação das conclusões de Durkheim nesse estudo. Muitas das conclusões a que ele chegou foram ultrapassadas por outros estudos ou por gente que interpelou a metodologia, os pressupostos teóricos bem como as técnicas de pesquisa. É normal em ciência. Na verdade, o mérito de Durkheim – prestem atenção, por favor – não está nas conclusões a que ele chegou. O mérito de Durkheim está na transparência do seu procedimento. É essa transparência que permite o debate e que, crucialmente, permitiu o desenvolvimento do pensamento sociológico. Durkheim mostrou que não há magia nas conclusões que um sociólogo tira. Mesmo que o sociólogo tenha qualidades intelectuais excepcionais as suas conclusões só têm mérito se passam o teste do debate porque, afinal, por mais que ele procure esconder esse facto ele também chegou a essas conclusões por via do método. É por isso que também insisto nisso e alerto-vos contra os perigos de discutirem conclusões. Durkheim disse que os factos são sociais. Demonstrou isso através da tentativa de explicação de um fenómeno individual. Mostrou que há um mecanismo que intervém entre a estrutura e o indivíduo, a saber a integração social. Terminou com uma especificação mais detalhada do fenómeno. Que mal há em discutir esse procedimento? Não foi essa discussão que consolidou a sociologia?

Enfim, termino com algumas inquietações em relação ao sentido que a sociologia faz: como é que somos capazes de perceber este estudo de Durkheim sem termos feito, nós próprios, um estudo sobre o suicídio? Que direito é que gerações de sociólogos têm de interpelar Durkheim se nunca, muitos deles, fizeram um estudo sobre o suicídio? Porque é que não se introduz a obrigatoriedade de todos os que se formam em sociologia fazerem um estudo sobre o suicídio para poderem comentar Durkheim com conhecimento de causa? E já agora, também sobre o capital (para comentar Marx), ética protestante (para comentar Weber) e trabalho mineiro (para comentar Ruth First)? Não é lixar o suicídio e as inúmeras vítimas (ou beneficiários!) deste flagelo colocar perguntas mesquinhas do tipo onde e quando, porque não nos suicidamos todos, etc.?

Estou interessado nas vossas respostas. Apresso-me, contudo, a dizer que o que torna estas perguntas necessárias é o que, tarde ou cedo, pode vir a lixar a sociologia em Moçambique.

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