quarta-feira, setembro 12, 2007

Da utilidade prática da pesquisa social empírica (3)

Ontem troquei a ordem dos textos. O texto que apresento agora devia ter sido o segundo da série. Agora vão ter que voltar a ler o primeiro, ler este e só depois ler o segundo. Pobres de vocês...

Nossas perguntas, respostas deles

O que torna o roubo de cabos e as ligações clandestinas difíceis de abordar é o simples facto de que é difícil formular uma pergunta que nos leve ao âmago da questão. Aliás, este é o problema de base da pesquisa social empírica. A investigação criminal é diferente. Ela quer saber quem cometeu o crime. Nós, pelo contrário, muitas vezes nem sabemos se estamos interessados em saber quem cometeu o crime, mesmo se houver crime. Alguns de nós começam por perguntar o que é crime. Isto é, fazem aquilo que Marx aconselhou num dos seus escritos, nomeadamente responder rejeitando a pergunta que nos foi colocada. Para podermos perguntar seja o que for precisamos de saber muito mais do que sabemos. Essa é a grande dificuldade. Se soubermos mais do que sabemos, não vemos mais necessidade de perguntar seja o que for. Daí o recurso instintivo de muitos de nós ao óbvio: fazem ligações clandestinas porque a sociedade está de pernas para o ar; roubam cabos para fornecer o sector informal em actos de resistência às desigualidades. E os que na EDM, pelo seu desleixo e incompetência, deixam que coisas destas aconteçam, estão a criar condições para a acumulação primitiva de capital no sentido conhecido de Balzac da origem das grandes fortunas...

Vamos aos bocadinhos. Se eu perguntar a alguém que rouba cabos eléctricos porque ele rouba cabos eléctricos, é provável que ele me responda o seguinte: roubo cabos eléctricos para ir fazer panelas. Reparem uma coisa muito importante. Sem me aperceber, coloquei duas perguntas e ele escolheu responder uma delas. Eu perguntei-lhe: porque roubas cabos eléctricos [ao invés de não roubares]? e ele percebeu: porque roubas cabos eléctricos [e não celulares, por exemplo]? Enquanto que para mim a vida apresenta duas opções, a saber (a) roubar e (b) não roubar, para ele a vida apresenta outro tipo de opções, nomeadamente (a) roubar cabos [que podem ser utilizados para fazer panelas] e (b) roubar celulares [que não servem para fazer panelas].

Acho que isto é importante. A minha pergunta não está mal feita. A pessoa que rouba cabos também não é parva. O que está a acontecer aqui é que as nossas perguntas encerram muito mais do que pensamos. Se não ficamos atentos a isso e insistimos muito na pequena janela das nossas perguntas, corremos o risco de perder de vista a complexidade de que o mundo é feito. E mais: sou de opinião que contribuir para a formação dos nossos jovens no pensamento científico social consiste em lhes mostrar todo o trabalho técnico envolvido – que não tem nada de magia ou de iluminação individual – mas é simplesmente metodológico e acessível a quem se esforce. Volto à vaca fria: há duas coisas que, do ponto de vista metodológico, estão a acontecer naquela pergunta e resposta. A primeira é normativa. Quando se fala da influência de valores na pesquisa social, a referência – pelo menos num sentido weberiano – é justamente ao mundo que nós damos por adquirido nas nossas perguntas. Dito de outro modo, as nossas perguntas partem do pressuposto de que certas coisas não carecem mais de explicação. Neste caso, por exemplo, a minha pergunta sobre porque alguém rouba cabos eléctricos [ao invés de não roubar nada], parte do princípio de que todos nós temos o mesmo investimento normativo na ideia de “não roubar”. Perdemos de vista que outras pessoas podem dar por adquirido outras coisas, nomeadamente que tirar coisa alheia pode ser uma opção na luta pela sobrevivência ou por uma vida melhor.

A segunda coisa, ainda do ponto de vista metodológico, é estrutural e tem gerado muita confusão, sobretudo da parte daqueles cientistas sociais que acham que uma análise só é boa e útil quando lança culpas ao sistema, mesmo onde este não existe. O que nós damos por adquirido é muitas vezes aquilo que sustenta as relações sociais. Por exemplo, a ideia de que não é bom roubar seja o que for está radicada na força/poder que certas instituições ou indivíduos têm de ditar as regras morais que devem orientar a conduta de cada um de nós. Essas regras estruturam a nossa apreensão do mundo e marcam os limites da nossa compreensão da acção dos outros. Da mesma maneira, o que rouba cabos eléctricos apreende outros elementos estruturais, nomeadamente a injustiça na distribuição de oportunidades, e isso leva-o a identificar os seus espaços de manobra. Então, o que eu quero dizer com isto é que nem a nossa conclusão de que o roubo de cabos eléctricos é imoral, nem a conclusão de quem rouba cabos eléctricos segundo a qual o importante seria contornar as desigualidades estruturais constituem ainda uma análise satisfatória do fenómeno. Demos apenas passos no sentido de começarmos a identificar o problema que queremos ainda formular.

Deixar as coisas ficarem por aqui é enveredar pelo caminho da irrelevância. Mas continuar também é muito difícil. A nossa pergunta sugere reacções do tipo punitivo ou moralizante: penas pesadas para ladrões de cabos eléctricos ou proibição de panelas no sector informal. As suas respostas sugerem outras reacções: mais justiça social ou oferta voluntária de cabos eléctricos aos que os roubam. Para chegar a este tipo de conclusões não é preciso nenhum estudo. Basta deixarmos que os nossos valores falem por nós. Já agora: o problema não é ter valores. O problema é pensar que os nossos valores constituem um critério de validade para as nossas conclusões, quando o desafio é sermos mais transparentes e interpelarmos esses valores. Em todos os escritos metodológicos de Max Weber a palavra “objectividade” aparece sempre entre aspas. Leiam esta achega. Persistir na ideia de que o que torna válido o nosso conhecimento é a sua capacidade demagógica de ajudar os desfavorecidos é, para mim, simplesmente irresponsável e deita por terra todos os ganhos que a análise social empírica nos oferece. Quando chegamos às nossas conclusões por via da magia abandonamos voluntariamente o convívio salutar do debate científico. Eu sou pela ciência, com todas as suas imperfeições.

2 comentários:

Izidine Cadir disse...

Interessante a tua análise, mas penso que não deves ficar apenas pelos desfavorecidos e entre panelas, como é sempre conveniente. Existindo um mercado global, os favorecidos, empresários e não só, oferecem uma contrapartida mínima de subsistência, obtendo de seguida altos lucros. Veja o que está acontecendo com as exportações.
http://bula-bulices.blogspot.com/2007/08/principais-produtos-exportados-por.html

Elísio Macamo disse...

de acordo. este é um palpite que faz parte do rol de perguntas que desfiei na segunda postagem da série. há muito que precisamos de saber para podermos formular a pergunta.