terça-feira, setembro 11, 2007

Da utilidade prática da pesquisa social empírica (2)

Qual é, então, o problema?

O problema é o roubo de cabos eléctricos e a ligação clandestina. Mas porque é que isso é um problema? Esta pergunta obriga-nos a fazer aquilo que Weber exigia da sociologia quando dizia que temos que primeiro entender, e não só explicar. A pergunta não é: porque as pessoas roubam cabos eléctricos e fazem ligações clandestinas? – porque isso sabemos intuitivamente e a partir dos nossos valores – mas sim, porque isso é um problema, para quem e como se manifesta. Aí não basta recorrer a Marx e descrever o capitalismo. Precisamos de dados empíricos. Mas reparem numa coisa muito curiosa: precisamos desses dados empíricos para podermos formular a pergunta e, depois, o problema! É louco, mas é isso mesmo. Todo o cuidado metodológico é pouco, muito embora, conforme já disse, quem acha que os valores sejam suficientes não considere esta maçada toda necessária.

Vamos a isso, então. Temos que saber como está estruturada a EDM. Quem recebe energia? Em que condições? Que tipos de problemas enfrenta a EDM na disponibilização dessa energia? Quem é mais afectado por esses problemas e em que medida? Que diferenças regionais e sociais existem na disponibilização da energia? Para que fins é consumida a energia? Até que ponto a interrupção do seu fornecimento é sentida como problema e em que circunstâncias? Por quem? Como reagem as pessoas a problemas no fornecimento? Como é que a EDM faz o controlo dos seus serviços? Quem o faz? Como reage às preocupações dos seus clientes? Que serviços disponibiliza? Quais são os níveis de procura dos seus serviços?

É evidente, como terão reparado, que nem todo o estudo empírico precisa de recolher este tipo de informação. Indico-a aqui para apenas chamar a vossa atenção para o facto de que ainda é mínima a nossa tradição de pesquisa pelo que não dispomos de estudos que nos poderiam proporcionar muita da informação que precisamos para começarmos a tentar formular os problemas. Não me parece sensato enfrentar este trabalho sem esta informação toda como pano de fundo. Mas, repito: o pesquisador-militante não precisa disto.

Do outro lado da equação precisamos também de muita informação. Que outros tipos de aplicação existem para os produtos e recursos da EDM? Em que actividades e contextos são utilizados? Por quem? Qual é a distribuição regional e social desse uso? É possível estabelecer correlações entre níveis de problemas com a população (roubos de cabos, ligações clandestinas) e nível de organização da EDM local, eficiência da polícia e autoridades locais? Quais são as características sócio-económicas dos que são apanhados (se o forem) a roubar cabos eléctricos e fazer ligações clandestinas? Qual tem sido a reacção da EDM e das autoridades locais? Em que medida é que o roubo e a ligação clandestina beneficiam ou prejudicam os demais utentes dos serviços da EDM? Como é que esses outros utentes sentem isso? Que mecanismos existem para eles reclamarem os seus direitos de consumidores junto da EDM?

Aqui também, como podem ver, estou a exigir muito mais do que é necessário para um estudo. A intenção, contudo, é de continuar a chamar a vossa atenção para a importância de partir de informação sólida para a formulação de problemáticas de pesquisa. Esta informação ainda não é o estudo. Esta informação é a base necessária para formularmos uma pergunta de pesquisa que nos permita ter uma ideia do problema que queremos ajudar a resolver. Esta informação vai nos permitir saber o que significa dizer que o problema da EDM é o roubo de cabos eléctricos e ligações clandestinas. Problema em que sentido? Na próxima postagem vou me debruçar sobre este assunto.

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