Os limites de Marx
O problema de Karl Marx e de quase todos os marxistas – assumidos ou não – não é não ter razão. O problema deles é de terem razão em relação a tudo quanto dizem. O mundo é imperfeito, injusto, desigual. O mundo capitalista, pior. Quem pode dizer não a isto? Quem pode querer entrar numa discussão sobre a perfeição, justiça e igualdade do mundo? Muito pouca gente, suspeito. Pior: justamente porque Marx e os marxistas têm razão, haviam de imediatamente encontrar uma explicação para a discordância desses poucos. Diriam algo como “falsa consciência” ou “interesses de classe”. Mesmo o desfavorecido que não lincha, não rouba cabos eléctricos, nem faz ligações clandestinas, não está bem de cabeça. O sistema drogou-o com overdose de aspirina. O marxismo faz um jogo de malabarismo muito perigoso entre a ciência e a religião. É ciência porque funda a sua análise na observação crua do mundo real, mas é religião por se furtar ao debate. A discordância não tem outra razão de ser senão fragilidade na fé. Moçambique ainda está, infelizmente, na ressaca do fervor revolucionário que quase nos conduziu à beira do colapso. Pior: porque o marxismo é meio ciência, meio religião, vai ser difícil encontrar dois marxistas que aceitem imputar a nossa deriva no passado ao marxismo. Aquele pessoal não era marxista; era oportunista, dirão.
Vem de Marx, e simpatizantes, a ideia de que as coisas só estão explicadas se o papel do sistema for posto a descoberto e se os fenómenos se tornam inteligíveis apenas a partir do ponto em que se descobrem desigualidades. O indivíduo não conta. Quando muito só conta para ser infantilizado pela análise social. Os indivíduos não sabem o que estão a fazer; o sistema é que os obriga a agirem da forma como estão a agir. Eu também, Elísio Macamo, não sei o que estou a fazer ou a dizer. Os meus interesses de classe obrigam-me a criticar o marxismo e a recusar ver o sofrimento dos outros. É de Karl Popper a pertinente crítica a Marx de que sistemas filosóficos daquela matriz conduzem directamente ao totalitarismo. É uma conclusão exagerada, mas estamos todos avisados. Eu aprendi da nossa experiência histórica recente, com os excessos dos bem intencionados revolucionários, e agora, com as boas intenções da indústria do desenvolvimento, a desconfiar de tudo quanto reclama plausibilidade na base da ideia de que é pelos menos afortunados. Entendo a análise social como um recurso que nos ajuda a tornar o mundo cada vez mais transparente e permite que cada um de nós seja capaz de articular os seus problemas e anseios com conhecimento de causa. Os mais desfavorecidos da sociedade sabem cuidar melhor de si do que muitos de nós supomos.
No fundo, o que Popper – recordem-se que ele insistiu na ideia da falsificação como princípio gestor do debate científico – quer dizer é que sistemas teleológicos só nos dão duas opções: converter ou destruir. Assim, para regressar ao nosso tema, a solução para os linchamentos é a transformação do sistema. O mesmo se aplica aos problemas da EDM com roubos de cabos eléctricos e ligações clandestinas: acabar com as desigualidades. Ou seja, perante os problemas que a sociedade enfrenta, problemas imediatos e práticos, contentamo-nos em confirmar a opinião daqueles que nos consideram inúteis com conclusões ocas.
Eu não partilho a ideia de que a utilidade das ciências sociais se mede pela quantidade de problemas práticos que ela for capaz de resolver, muito menos pela contribuição que ela pode dar para a redução de desigualidades. Não obstante, sou de opinião que nem tudo o que fazemos, quando fazemos ciências sociais, é inútil do ponto de vista prático. Posso não ser capaz de resolver um problema prático, mas a minha reflexão pode ajudar a sociedade a formular melhor esses problemas e, quem sabe, a encontrar ela própria as soluções. Mas para que isso seja possível, é necessário ser mais transparente em relação à reflexão que faço e, acima de tudo, ter a coragem de seguir o raciocínio até às suas últimas consequências. Tenho que estar disposto a questionar os meus próprios valores e permitir que eles me ajudem a perceber a inconclusão do meu pensamento, não a confirmação dos meus palpites. Nem toda a gente reage ao colapso do sistema público de justiça linchando os outros; nem toda a gente desempregada ou vivendo do sector informal resiste às desigualidades roubando cabos eléctricos ou fazendo ligações clandestinas. Então, a pergunta é: como se explica isso? O que faz com que certas pessoas reajam assim e outras de forma diferente? Que condições imediatas propiciam estas reacções? Em suma: o que nos leva a supor que os desequilíbrios estruturais do sistema explicam os fenómenos por nós observados? Falsa consciência de uns, hegemonia dos opressores? Analisar sociologicamente não é desculpar, nem responsabilizar. Analisar sociologicamente é tornar cada vez mais precisas as afirmações que fazemos sobre a realidade.
O meu palpite em relação aos cabos eléctricos e às ligações clandestinas coloca a EDM no centro do problema. O que é capaz de explicar a relação entre a “imoralidade” ou “injustiças”, por um lado, e “roubos/ligações clandestinas” ou “resistência”, por outro, é a relação entre a EDM como uma empresa que disponibiliza serviços – e que, portanto, se articula com os seus clientes por via de direitos, obrigações e deveres – e os seus clientes – que, portanto, dependendo do seu nível de satisfação reagem ao serviço prestado. Acho que seria interessante, partindo de tudo quanto sabemos sobre as imperfeições estruturais da nossa sociedade, olhar muito especificamente para esta relação perguntando pelo caminho o que uma maior identificação com a empresa pode produzir, o que um melhor serviço pode significar mesmo para aqueles que não são clientes, enfim, como através de bons níveis de organização interna a EDM se pode inserir melhor nos meios sociais onde está presente. São apenas palpites que até podem conduzir a becos sem saída, quem sabe, mas o importante é entrar por esses becos. Algo me diz, e alguns comentários que tenho lido a esta série e outros textos faz-me supor isso, que a EDM está a optar pelo mais fácil que consiste em procurar pelo problema longe de si.
Não produzir resultados práticos em ciências sociais não é o problema. Um estudo que vai dar num beco sem saída tem também a sua utilidade prática se estiver claro porque falhou. O que tentei dizer nestes textos é justamente isso: só emulando a transparência na nossa investigação, evitando conclusões dramáticas, mas de pouca utilidade prática, é que podemos realmente contribuir para perceber os problemas da nossa sociedade ajudando na sua melhor formulação. A ciência só pode avançar se estivermos preparados a nos enganarmos. A noção de falsificação defendida por Popper diz exactamente isso. Marx, em contrapartida, ensina-nos a termos sempre razão. De ciência, esta atitude tem pouco. De superstição, muita. Não seríamos moçambicanos se não fóssemos assim.
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