sexta-feira, janeiro 04, 2008

O direito à razão X

O último ano terminou com uma discussão mais ou menos inconclusiva sobre a crítica social. Este texto (leia-o aqui) circula na internet já há algum tempo. Eu próprio recebi-o há já vários meses de alguém que trabalha com o Centro de Integridade Pública.


Não o comentei na altura por o ter considerado tão problemático quanto os vários relatórios que aquela instituição já publicou sobre a corrupção em Moçambique. Lembro-me de ter comentado a qualidade de alguns destes relatórios no blogue de Carlos Serra e de ler, mais tarde, indirectas sobre “os que se preocupam mais com os conceitos do que com a realidade”. Hoje pego neste texto porque caiu de novo na minha caixa de correio e quero usá-lo para ilustrar o que eu entendo por responsabilidade na crítica, apesar de tudo quanto está mal no país. Integro a minha análise na rubrica com o nome de “direito à razão” porque considero o texto uma afronta a esse direito que todos nós temos. Como devem estar recordados, esta rubrica divulga e comenta atentados ao direito que a nossa esfera pública tem de discutir coisas apresentadas de forma responsável, racional e, porque não, útil.

Apesar de eu insistir demasiado na clarificação do conceito de “corrupção” e, por vezes em resposta aos que insistem em usar o conceito de forma descuidada, dizer que ela não existe, ela é um problema muito sério em Moçambique. O meu primeiro texto no jornal Notícias foi sobre a corrupção e o título que eu próprio havia dado a esse texto era “porque a corrupção não é o problema que dizem ser, mas mesmo assim devemos ficar preocupados”. Como este título longo indica, não recusava a existência da corrupção. Lembro-me de nesse texto argumentar contra a ideia geral de que a grande corrupção era o maior mal, opinião que continuo a manter. O maior mal é a pequena corrupção e isto por várias razões, a mais importante das quais é o facto de ela documentar de forma extrema o nosso problema político central, nomeadamente a vulnerabilidade do cidadão. Em textos subsequentes já não me debrucei com muita profundidade sobre a questão. Entretive-me a questionar a ideia que os auto-intitulados críticos da corrupção tinham desse mal e fui ganhando a convicção de que muito poucos de entre eles sabiam realmente do que estavam a falar.

Portanto, a corrupção é um grande problema em Moçambique. Quão grande não sei, nem mesmo se ela explica o não-desenvolvimento. Só sei dizer, por enquanto, que é um grande problema. Sei também dizer que a sua abordagem é extremamente problemática baseando-se, ao que tudo indica, numa suspeita geral que constitui a sua própria prova dos nove. Vamos reler o texto acima juntos e eu vou comentando o que acho problemático. Vão reparar que os meus comentários não são sociológicos no sentido restricto do termo; são comentários que têm a ver com regras simples do debate de ideas na esfera pública.

O artigo começa com uma afirmação geral que vou deixar passar para não ser mesquinho. Caso contrário, iria interpelar a afirmação segundo a qual a corrupção em Moçambique e na maioria dos países em desenvolvimento seria um problema sério da sociedade. Isto é, iria procurar saber o que esta afirmação quer dizer. Que é característica dos países em desenvolvimento padecerem deste mal? Que a existência desse mal é um facto que deve ser tomado em consideração para perceber a condição desses países? Que qualquer descrição desses países deve passar pela menção desse mal? Como podem facilmente ver, há nesta afirmação algo subentendido, mas que é central à construção do “problema da corrupção” em Moçambique e nos países em desenvolvimento. Porém, conforme disse, vou passar por cima disso.

Onde me quero deter por alguns instantes é na afirmação “é de temer que a situação possa piorar”. Isto é no segundo parágrafo após a informação factual segundo a qual Moçambique ocuparia o 111° lugar numa classificação internacional que envolve 179 países. É uma afirmação grave. Na próxima classificação o nosso país pode estar no 112° ou mesmo no 120° senão mesmo no 179° lugar. Abaixo de 111° ou até no mesmo lugar é que não vai ficar. Já que a corrupção é um dos problemas mais preocupantes da nossa sociedade é legítimo esperar que o mensageiro que nos anuncia esta triste notícia – que vai preocupar a nossa sociedade ainda mais – elabore um pouco o assunto. O que lhe leva a supor que a situação possa piorar? Teve acesso aos relatórios preliminares? Foi convidado a elaborar o próximo relatório? O próprio problema piorou? Como sabe? Que critérios usa para fazer a avaliação? O que eu acho grave nesta afirmação é o simples facto de ser lançada e não parecer carecer – pelo menos na opinião de quem escreveu o texto – de mais explicação.

E é este tipo de afirmações que depois a imprensa ou certos blogues moçambicanos pegam e citam para depois concluirem que o problema da corrupção em Moçambique é mesmo grave; segundo a instituição não-sei-quantos a previsão é que a situação venha a piorar. Enfim,... Também passo por cima de uma frase bastante críptica que diz “O ênfase é normalmente dado aos pobres e mal pagos funcionários públicos com decisões sobre contratos e quantias que envolvem muitas vezes o seu salário”. O que quer dizer esta frase? Que quando se fala de corrupção dá-se mais atenção aos funcionários públicos do que a uma outra coisa mais importante? E que coisa é essa? Que a situação é capaz de piorar para o ano? E porque se presta mais atenção aos funcionários públicos? Estará a referência à pobreza e mau salário dos funcionários a tentar explicar alguma coisa? Que coisa? Mas, prontos, passo por cima. Só que sem nos darmos conta já está aqui de novo mais uma verdade que vai ser repetida ad nauseum na imprensa e blogues “críticos”.

Depois passamos para a história propriamente dita. E a ponte é curiosa. Anuncia-se que se vai falar do corruptor activo (há corruptores passivos?) “... que provoca situações pouco éticas por vezes ilegais”. Se o corruptor é activo significa que ele está a conjugar o verbo “corromper”. Logo, ele provoca situações pouco éticas; e em princípio devia também estar a agir fora da legalidade. Para quê tanta redundância? É a reclamação do espaço normativo de enunciação? Acho a linguagem aqui extremamente curiosa. O que se segue é mais do que curioso. Digo, desde logo, que não estou interessado na veracidade do que o artigo contém. Estou, isso sim, interessado na forma como acusações tão graves como as que o texto faz podem ser feitas sem a mínima preocupação de as fundamentar. Suponho que só tribunais é que possam clarificar algumas das questões levantadas, mas o meu interesse está na facilidade com que acusações tão graves podem ser feitas na nossa esfera pública. Muito estranho.

O texto insinua que a KPMG iniciou uma campanha para denegrir a imagem de outra empresa perante os doadores e as entidades públicas. Ao que parece, estes últimos deixaram-se manipular – não foram tão perspicazes como o Centro de Integridade Pública. Em seguida insinua-se que o primeiro chefe da KPMG deixou de o ser por se sentir impotente para enfrentar a concorrência de forma – está subentendido – leal e juridicamente limpa. Uma afirmação grave sem fundamentação. Não se diz se a notícia é resultado de uma entrevista ao fulano em questão ou a gente próxima. Nem o principal recurso da imprensa moçambicana – “fontes dignas de crédito que pediram o anonimato” – é usado. O tipo abandonou a empresa por se sentir incapaz de bater a concorrência de forma leal e juridicamente correcta. São contratadas duas pessoas para a “gestão do topo” – um ex-funcionário da União Europeia e um ex-membro da Comissão Nacional de Eleições. Não se diz nada sobre as qualificações dessas pessoas a não ser que foram contratadas pelo simples facto de o novo timoneiro da KPMG “saber” que dinheiro é só com doadores e Estado. Onde vão parar políticos reformados na Europa e na América do Norte? Em organizações da sociedade civil ou em grandes empresas como consultores? E porquê? Porque como políticos são íntegros ou porque têm contactos? Que grande nova esta! Mas uma nova que funciona à custa de ataques a pessoas.

Assim, o que vem da União Europeia – cujas qualificações para o cargo não são tematizadas – é conhecido pelas suas “festas” – que são regadas com álcool e drogas. Reli esta passagem inúmeras vezes. É possível que o tal fulano de facto seja conhecido pelas suas “festas regadas com álcool e drogas”. Mas não seria de bom tom para uma instituição como o Centro de Integridade Pública que procura fazer trabalho sério proporcionar aos seus leitores – a este pelo menos – mais informação sobre esta acusação tão grave? Sente-se bem dizendo uma coisa assim tão grave sem nenhuma elaboração? Tipo, “eu estive numa dessas festas” ou “conheço alguém que lá esteve” ou coisa parecida? E o pior ainda vem aí: estes dois trunfos da empresa parecem muito poderosos nos respectivos meios de onde vêm. Enquanto um usa as suas influências na comunidade doadora, o outro manipula o jogo partidário para ganhar concursos para a KPMG. É possível. Mas a questão que se coloca para mim é de saber se estes dois fulanos são mesmo assim tão influentes até esse ponto? E se são, será que o problema da corrupção ainda é mesmo um simples problema de imoralidade da parte do Estado moçambicano, ou será que há mesmo condições estruturais que ainda não estamos a perceber bem? Não valerá à pena tentar perceber isso melhor? A pressa de denunciar não está a conduzir o Centro a passar por cima de questões mais centrais? Na verdade, estas não são questões que este artigo possa responder, pois em princípio trata-se apenas de uma informação (denúncia). Pergunto-me, contudo, se os “críticos” que forem ler isto terão a preocupação de as colocar. Duvido. Mas seria tão bom para o nosso país.

Segue-se depois uma série de acusações que não são substanciadas no texto pelo que podemos partir do princípio de que se trata de especulação: contas no exterior, comissões fixas, etc. Em princípio, reparem, não há nada estranho que uma companhia estrangeira tenha contas bancárias fora do país. E em princípio também não há nada anormal no facto de ela canalizar os lucros para lá, nem de pagar pelos serviços através dessas contas. Tudo isso depende do que a nossa legislação permite, ou não. Todavia, é típico da denúncia usar indícios que servem para muita coisa para sugerir o que ela própria quer dizer. Assim, se alguém fosse verificar e ficasse a saber que a KPMG tem de facto contas no exterior – independentemente do que a legislação moçambicana diz a esse respeito – o palpite ficava confirmado. É grave.

Segue-se a acusação segundo a qual a KPMG seria tão poderosa ao ponto de passar por cima das regras de aprovisionamento e mesmo de ganhar concursos nos quais ficou em segundo ou terceiro lugar. A ideia chave aqui é a sugestão de que a firma é poderosa. Conspiração, portanto. O resto é apenas insinuação, mas muito bem colocada. Mas o que significa “passar por cima das regras de aprovisionamento”? O diabo aqui está no detalhe. Sem nenhuma informação sobre um caso concreto que ilustre a violação dessas regras é impossível dar crredibilidade a um texto destes. E teria sido tão fácil! Era só uma questão de dar um exemplo. Igualmente, pergunto-me o que significa “ganhar um concurso em que se ficou em segundo lugar”. É bem possível que a firma tenha ficado com um concurso no qual ocupou o segundo ou terceiro lugar. Essas coisas acontecem, sobretudo quando se apura que o vencedor não satisfazia todas as condições de eligibilidade. Isso acontece. Portanto, teria sido importante aqui também indicar um caso específico em que o primeiro classificado satisfazia todos os critérios e mesmo assim perdeu para a KPMG; caso contrário, é especulação da mais barata, pois é à custa da credulidade do leitor incauto.

O parágrafo mais intragável de todo o texto é o seguinte: “Esta situação é ainda mais grave quando grande parte dos trabalhos efectuados por esta empresa passam por analisar e denunciar situações de corrupção. Obviamente a empresa passa a estar limitada nas opiniões que emite sobre os seus clientes. Analisem-se os jornais dos últimos anos e veja-se que é normal (quase mensalmente) virem a público situações de corrupção evidenciadas pelos relatórios dos auditores. Quantas destas notícias tinham por base relatórios da KPMG? Nenhuma”. A grave situação a que o texto se refere é o conluio entre a empresa, doadores e Estado. As coisas começam mal logo na sugestão de que “parte” do trabalho da empresa consiste em “analisar e denunciar situações de corrupção”. O meu problema com esta sugestão é de que “analisar e denunciar situações de corrupção” não devia ser parte do trabalho de uma empresa de auditoria. Uma empresa deste género devia simplesmente verificar se as contas foram bem feitas ou não. O resto é trabalho da justiça. Mas lá está a lógica da denúncia. Denúncia e circularidade. Uma vez que o trabalho consiste em “analisar e denunciar corrupção” se não se apurar nada os “críticos” vão dizer que é porque os “corruptos” são espertos ou então a empresa de auditoria está feita com eles. Porquê? Porque em Moçambique há corrupção, nós é que não estamos a ver. Estão a ver o problema da denúncia? Estão a ver a afinidade com a epistemologia dos “críticos”? É grave. E continua. “Analisem-se os jornais dos últimos anos” – quantos, já agora? Dois últimos anos? Cinco últimos anos? – “... e veja-se que é normal (quase mensalmente) virem a público situações de corrupção evidenciadas pelos relatórios dos auditores”. Verdade? Eu não estou em Moçambique e não posso dizer com certeza se isto é verdade ou não. Mas quando estou em Moçambique e abro os jornais vejo poucas “situações de corrupção evidenciadas pelos relatórios dos auditores”, mas muito poucas mesmo. E essas poucas “situações” são na sua maioria casos de especulação pelos jornalistas. Dos grandes casos de “corrupção” conhecidos – por exemplo, no Ministério da Educação e na UEM e que foram motivo da retirada de alguns doadores nórdicos – não está claro se houve mesmo “corrupção” ou se, simplesmente, as contas foram mal feitas devido à confusão que os mecanismos de contabilidade dos doadores criam para o nosso sistema de contas. Há o caso famoso de um ex-Director de Faculdade na UEM que foi acusado – ao que tudo indica injustamente – de corrupção por não ter sido capaz de justificar um certo montante em falta num projecto sob a sua direcção. Como o que desapareceu não está justificado a conclusão que se tira é de que foi roubado. Na caça às bruxas que caracteriza o discurso anti-corrupção a pessoa é culpada até prova em contrário.

Mas a frase mais grave de todo o texto é a seguinte: “Quantas destas notícias tinham por base relatórios da KPMG? Nenhuma”. Portanto, uma vez que nenhum dos relatórios da KPMG serviu de base para os jornais noticiarem “situações de corrupção”, logo a própria KPMG está envolvida nesses esquemas. Quem não participa na denúncia está feito com o inimigo. São várias coisas que me incomodam neste argumento. Primeiro, em todo o texto sugere-se a ideia de que a KPMG controla o negócio das auditorias, mas depois diz-se que “quase mensalmente” são noticiadas “situações de corrupção” baseadas em relatórios de outras empresas. Ainda sobra, portanto, muito negócio para os outros – e nem vou levantar a questão de que do outro lado da moralidade haja também um interesse especial em exagerar os casos de corrupção – sobretudo se admitirmos que nem todas as auditorias revelam “situações de corrupção”. Segundo, a informação geral segundo a qual certas auditorias revelam “situações de corrupção” e outras – da KPMG – exige, em minha opinião, que os autores do texto nos facultem mais dados. Por exemplo, quais são as áreas sobre as quais as outras empresas fazem consultorias e quais são as da KPMG? Se calhar a diferença está aqui. Terceiro, e mais grave do ponto de vista da lógica, será que toda a auditoria tem que desembocar em “situações de corrupção”?

Não vou comentar o último parágrafo sobre a “hipocrisia das multinacionais”, pois ele revela esta visão bastante redutora e problemática dos nossos países. Apesar de o texto se debruçar sobre uma multinacional, a ideia que os autores do texto têm do nosso país é que estrutura a sua estupefação. Parte-se sempre do princípio de que nós é que somos o problema e quando de repente somos confrontados com um caso que revela o contrário, ficamos estupefactos. Vou me permitir uma generalização grosseira ao grande estilo dos “críticos”: não há empresa no mundo que insistiria na legalidade se soubesse que se safava impune. Nenhuma! Nem mesmo uma empresa do Vaticano.

Escrevi este texto demasiado longo – e saltei por cima de várias falácias contidas no artigo em questão – para vos alertar contra os atentados de que é vítima a nossa razão. Se alguém pensa que com isto estou a tentar proteger os “corruptos”, muito bem. Cada louco com a sua mania. Cá por mim sou de opinião que as coisas que não andam bem no país exigem mais ainda de todos quantos gostariam que elas andassem bem. Assim, a nossa crítica tem que ser melhor do que as coisas que queremos criticar. Temos que ser mais exigentes em relação a nós próprios e às conclusões que tiramos. Temos que ser o exemplo de integridade que reclamamos para as coisas públicas. Não nos devemos contentar com o argumento parasita segundo o qual “toda a gente sabe”. Isso até nem é argumento. É um atentado ao nosso direito à razão. Pior do que corrupção é termos uma crítica anti-corrupção que se permite tudo e, pior ainda, termos colegas na academia que pensam que a gravidade da situação do país exige de nós ligeireza metodológica e conceptual no tratamento dos seus problemas. Repito: é grave.

24 comentários:

Patricio Langa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Patricio Langa disse...

Elísio.
Parabéns pela excelente recensão crítica. Felizmente, quanto se trata de RAZÃO, nem sempre a maioria é que têm razão.
É a este tipo de interpelação que chamam de “academismo puro”, de “filosofia pura”. Imagino o que os “arautos da acção” vão achar do teu texto: “defesa dos corruptos”. Para eles Azagaia é que está certo porque reproduz em tom alto este tipo de falácias grosseiras que relatórios como este apresentam. E se disséssemos que eles produzem relatórios deste género – inventam a corrupção – justamente para terem o que fazer, para terem atenção e dinheiro dos doadores que também estão sedentos em caçar as bruxas? Estaríamos a usar a mesma estratégia que eles adoptam, acusar sem fundamento.
É isto que alguns insistem em não querer perceber, querem agir.

AGRY disse...

Acabo de fazer uma apressada primeira leitura ao texto. Está brilhante.
Agora, se me permite, gostaria de me dirigir a Patricio Langa para lhe pedir que abandone as expressões belicosas. Mantenha bem alto o seu espirito crítico mas, por favor, nada de guerrilhas.
Claro, não me senti minimamente beliscado pelas suas palavras só que como referi noutro comentário,
gostaria de ver harmonia no seio da familia sociológica moçambicana.
É só isso

Patricio Langa disse...

Caro(a) Agry.
Obrigado pela advertência e principalmente pela forma como o faz.
Vou procurar moderar a minha linguagem baixando os ânimos. Ainda bem que existem leitores atentos e bem intencionados como o (a) Agry.
Abraço

Anónimo disse...

Prof. Macamo e Langa,

Essa discussão do papel do académico e sobre provas, está velho de mais. E os políticos ou fazedores de politicas que acompanham estes debates, estão sentados numa esquina a rirem-se de nós que não sabemos ou que estamos com dúvidas sobre a sua actuação (boa ou de enriquecimento injusto e a custa do povo). Dizem ainda bem que estes críticos não se entendem. O papel dos blogs está ficando cada vez mais reduzido, agravado pelo vosso excessivo abraço `a filosofia. Amigos, filosofia, latim, etc, ‘e divertimento na Europa, e africa não precisa de filósofos tão bem afinados como vocês, talvez sirvam alguma coisa na Europa e não para a africa. Aqui queremos acção!

Professor, em relação `as provas que tanto exiges do autor do texto e de vários outros textos que andam no blog do Dr. Carlos Serra, estou certo que está a exigir a pessoas erradas. Os vários denunciadores e desabafadores não têm recursos, nem é sua vocação investigar as coisas até o detalhe que exiges. Temos órgãos apropriados, PIC, PGR, Instituições anti-corrupcao, etc. Por exemplo, para que servem as investigações forenses? Isto custa muito dinheiro e o cidadão comum nem tem taco para apanhar chapa. Como iria colocar o preto no branco? Impossível! E os políticos e outros mal intencionados vão se aproveitando dessas fraquezas, e reparem que um dos esforços quotidianos dessas pessoas ‘e de trabalhar na eliminação de possíveis rastos dos vários desmandos que cometem e isso envolve se for necessário, fuzilamento de pessoas, e outros meios para justificar os fins.

Anónimo disse...

O centro de integridade publica negou a autoria do emailL ou texo.

Elísio Macamo disse...

caro agry, obrigado. como vê, ninguém está a pedir que alguém deixe de apontar o que está mal. o único que estamos a pedir é acordo sobre critérios básicos de crítica. isso é o mínimo para que haja harmonia no seio da comunidade académica moçambicana. textos desta natureza são uma vergonha para quem tem o interesse do país no coração. tenho a certeza que o agry é tão hostil à corrupção quanto qualquer um de nós; o que o levou a achar o meu comentário interessante, apesar de aparentemente estar a prestar um bom serviço aos "corruptos", foi, de certeza, a sua sensibilidade em relação à crítica bem fundamentada (que está ausente do texto). vai ter reparado, também, que no meu texto não estou a exigir provas, nem estou a dizer que os autores do texto devam primeiro encontrar provas e só depois podem articular a crítica. estou apenas a sugerir que não insultem a nossa inteligência. só isso. não sei como é que um colega de tão grande mérito quanto carlos serra pode se sentir tão bem na companhia de gente que esgrime argumentos como o xibeulane. não sei. ao invés de usar a sua experiência e os seus conhecimentos para ajudar jovens com muito potencial a usarem melhor os instrumentos de que dispõem, encoraja-os a pensarem que já não têm mais nada a aprender.
caro anónimo, obrigado pela advertência. espero, pelo bem da luta contra a corrupção em moçambique, que o texto não tenha sido da autoria do centro de integridade pública. conforme indiquei no meu texto recebi-o por email de um indivíduo que colabora ou trabalha no centro. tenho o email conservado (datado de 22 de outubro de 2007). independentemente da autoria do texto o que eu queria ilustrar é justamente o tipo de crítica que não ajuda. a forma como esse email circula pela internet revela que há gente que o considera como revelação da verdade. nós que fomos formados para lidar com este tipo de coisas temos a obrigação de nos distanciarmos destas abordagens problemáticas.

Anónimo disse...

Prof., está mais que claro que dispensa as minhas contribuições, talvéz por serem contrários aos seus e do Prof. Langa. Mas ainda sobre a teoria e prática, ou sobre o que mudar, das conversas que tenho tido cá em Nampula (estou cá a quase 10 anos) nota-se grande fúria sobre a governação do país, pior neste últimos anos. Apesar de alguns projectos novos por aqui, o custo de vida está altíssimo, e só sobrevivem os mais bem posicionados, na maioria governantes. É normal ouvir que desta vez "não vou votar" ou "não voto nestes corruptos", etc. Que interpretação faz desta fúria popular? Ainda temos que estudar a situação? Quem vai estudar? E que encaminhamento vão dar a estes estudos? Não se esqueça que estamos sempre a receber na província várias delegações de consultores, qual é a diferença entre estes estudos e os que os professores sugerem? Amigos, o país está mal mesmo. Se estamos a abordar mal a questão, porque não começam a escrever temas concretos para os outros tomarem como exemplo? Em vez que ficarem a criticar o que os outros escrevem? Qual é o vosso papel na alívio à pobreza????

Elísio Macamo disse...

caro xibeulane, não reagi directamente ao seu primeiro comentário porque o achei final ao sugerir que não houvesse nenhuma utilidade para o tipo de coisas que estou a tentar fazer. perante um argumento dessa natureza não acho que ainda haja necessidade de discussão. só podemos decidir ficar por aí. o seu novo comentário é diferente, mas revela alguns equívocos em relação à discussão que estamos a manter e, em particular, ao texto que comentei aqui. comecei hoje a publicação de uma série de textos que vai, talvez, ajudar a responder algumas das suas inquietações. vai notar que não estou a dizer que está tudo bem e nada deve ser alterado. não estou a dizer que os académicos não têm nenhum papel a desempenhar na solução de problemas práticos. a situação que descreve de nampula é, provavelmente, típica de várias outras partes de moçambique. é grave. há muitos motivos para as pessoas se sentirem como descreve. quanto a mim a questão seria de saber se a aceitação do diagnóstico popular quanto à responsabilidade dos "corruptos" pelo que está mal nos proporciona uma base para partirmos para a acção. não sei. uma das contribuições que posso fazer consiste em reflectir sobre o que os outros fazem ou dizem. sei que não é tão concreto como o xibeulane gostaria que fosse. nesse sentido, aceitaria a sua crítica de que sou irrelevante para o alívio à pobreza.

Anónimo disse...

Prof., não digo que para combater a pobreza todos temos que pegar na enxada. O prof. pode combater a pobreza a sua maneira, há várias formas de contribuir nessa causa nacional. Portanto, há alguma pertinência no que o professor escreve e sugere. A minha preocupação relaciona-se com a lentidão do combate à pobreza usando essas vias. Não haverá outras vias mais práticas e rápidas para tal. Estamos a morrer de fome, doenças e analfabetismo. Que soluções académicas aqui?
Descobri o seu site este ano. Estou com plano de ler todos os seus textos anteriores, posso estar mesmo equivocado nas minhas insistências. Obrigado pelas suas respostas.

Anónimo disse...

Caro Elísio, eu já havia comentado este texto, que foi colocado em jeito de comentário no blog de Carlos Serra.

Algumas pessoas lá teceram loas ao texto, brandindo-o como prova definitiva de que em Moçambique estamos mal. Uma das coisas que mais me chocou foi o facto de se basear a denúncia no denegrimento de pessoas e instituições, sem nenhuma preocupação de fundamentar.

Insurgia-me, mais especificamente, contra o assassinato de caracter, que consiste em apresentar um profissional como alcólatra e drogadito.

Veja no seguinte endereço: http://oficinadesociologia.blogspot.com/2007/11/negcios-em-moambique.html

Obed L. Khan

Elísio Macamo disse...

caro obed l. khan, segui o elo que me indicou e fui ler a discussão. é típico. reparei também que deu uma sova nos sociólogos. é em defesa de outros sociólogos que insisto nestas coisas.
caro anónimo, suponho que se trate do "xibeulane", pois parece estar a reagir ao que escrevi em resposta a este último. coloca uma pergunta que revela, pelo menos para mim, toda a extensão do problema. pergunta "que soluções académicas aqui?". o que tenho dito sobre o papel dos académicos é que podíamos contribuir com uma melhor formulação dos problemas para os quais no nosso país existem muitas soluções e estão a ser postas em prática, mal ou bem. as pessoas estão a morrer de fome. sim, mas onde, em que circunstâncias, de que maneira, porque isso não incomoda aos governantes tanto quanto devia incomodar (supondo que seja esse o caso), que alternativas, etc. não estou a ironizar quando digo que a minha contribuição como académico é, neste sentido, pouco concreta, sobretudo quando se tem em conta a urgência da solução. tenho medo de sugerir a ideia de que esses problemas têm solução imediata e que é possível acabar com a fome, doenças e analfabetismo em poucos instantes. eu não conheço essa solução. só sei dizer que alguns entre nós devem manter presença de espírito suficiente para ir reflectindo estas coisas (as soluções e problemas) sem a ilusão de que com mais vontade tudo se resolveria mais rapidamente. ainda bem que não tenho que explicar isto aos que estão a morrer de fome, doenças e analfabetismo. por favor, leia as séries que escrevi sobre formulação de problemas e consultorias. diga-me, depois, o que acha. um abraço

Anónimo disse...

Obrigado prof. vou ficar com o TPC das leituras, depois volto "à carga".

Anónimo disse...

Caro Prof. Elísio
Acabam de me alertar que teceu duras críticas ao CIP à propósito de um texto sobre a KPMG. Diz na introdução ao seu comentário que recebeu esse texto "de alguém que trabalha com o CIP". E ao longo do seu comentário deixa claro que o texto é do CIP, o que não é verdade. O Prof. desata a criticar o CIP por um texto que não escrevemos. Devo dizer-lhe que o CIP identifica claramente os textos que publica; fá-lo em pdf e grafa o seu logo no texto para que não haja dúvidas quanto à autoria. E sobre os seus relatórios, o CIP aceita críticas. Alás, o Prof. é um dos que não tem poupado críticas ao CIP, aos nossos problemáticos relatórios, o que louvamos.
Mas também repudiamos quando nos criticam por coisas que não fizemos, como é o caso.
O facto de ter recebido esse texto de alguém que trabalha com o CIP não quer dizer que se trata um texto do CIP. Se tivesse a mínima atenção de observar havia de concluir que recebeu, eventualmente, um forward de um texto que ja circulava muito antes de 22 de Outubro.
Agradecia que, se houver espaço para tal, corrigisse este facto no seu bloq.
Atenciosamente
Marcelo Mosse

Elísio Macamo disse...

caro marcelo mosse, obrigado pela advertência e peço desculpas pelo equívoco. um comentador anónimo do blogue já me havia informado que o cip havia negado a autoria do texto. recebi o email de alguém cujo nome consta como co-autor de alguns dos vossos relatórios. essa pessoa enviou-me, para além deste email, os vossos relatórios. se me indicar o seu email, mando-lhe o email que me foi enviado para saber quem é essa pessoa e talvez lhe perguntar porque manda emails com o nome do centro quando sabe que não são da sua autoria. se essa pessoa estiver a ler este comentário agradecia que lhe explicasse isso.
repare, por favor, que não é verdade que teci duras críticas ao cip; teci duras críticas ao texto, embora sob a falsa impressão de que o autor fosse o cip. penso que há diferença.

Elísio Macamo disse...

caro marcelo mosse, tem razão. agora vi que o email que o seu colega me enviou traz apenas o endereço do centro de integridade pública, mas não indica a autoria do texto. peço-lhe, de novo, desculpas pelo equívoco. acho, contudo, estranho, que o seu colega reenvie esse tipo de textos sem o cuidado de informar que não são da autoria do centro. o segundo email que recebi e que me levou a escrever este comentário não é de ninguém da cip, mas tem também o endereço do centro e sem indicação do autor.

Anónimo disse...

Caro Prof. Elísio
Compreendo perfeitamente que foi induzido ao erro. Induziu-lhe ao erro facto de terem sido feitos forwards desse texto por via de um email onde no final do corpo vém sempre gravados os endereços do CIP.
Este facto induziu ao erro muitas outras pessoas bem intencionadas.
A maioria escreveu a perguntar e clarificamos prontamente. Mas também ouve tantas outras que perceberam logo que não se tratava de coisa do CIP. Pela linguagem, pelas acusações, pelos insultos, etc, etc. Se tem acompanhado o trabalho do CIP e o meu trabalho pessoal de jornalista desde os meados dos anos 90 vai ver que era muito difícil atribui aquele texto a nós. Mas, enfim, são ossos de ofício. Acredito na sua boa fé.
Cumprimentos
MM

Elísio Macamo disse...

caro marcelo mosse, obrigado pela sua compreensão e obrigado pelo merecido puxão de orelhas. eu devia ter perguntado ao cip, pois, de facto, o texto é demasiado problemático para ser da autoria de um centro que se pretende íntegro. permita-me a sugestão de que não deixe nenhum dos seus colegas distribuir emails com conteúdo que fere as susceptibilidades do seu centro. escrevi para o seu colega a pedir-lhe que me mande apenas informação com indicação clara de autor. cumprimentos

Anónimo disse...

Entao o elísio é das intrigas????

Elísio Macamo disse...

sim, caro anónimo, sou das intrigas, afinal ainda não tinha percebido? farei mais intrigas se isso continuar a dar-lhe muita alegria como parece o caso agora.

chapa100 disse...

elisio! acho que alguns leitores dos blogues estao a perder a boa educacao, mas espero que com recursos a dialogos e interpelacoes inteligentes podemos ultrapassar isso. esta situacao que venho assistido nos blogues, nao pode afectar a boa maneira com que os nosso intelectuais e academicos se expoe. como bem dizes forca no exercicio de reflectir na reflexao.. pambene

Elísio Macamo disse...

caro jorge, obrigado pelo encorajamento. infelizmente, enquanto colocarmos pessoas e não ideias no centro do debate vai ser difícil cultivar as boas maneiras na blogosfera. mas se algumas pessoas se sentem bem portando-se mal comigo, fico contente em poder contribuir para a sua felicidade. o efeito pedagógico disso é ajudar-me a defender a posição que tenho estado a defender.

Anónimo disse...

E eu vou perguntar se vai denunciar quem lhe manda as cartas falsas. Com que confianca?

Elísio Macamo disse...

boa pergunta, caro anónimo. já denunciei a pessoa com a confiança de saber que se trata de uma pessoa íntegra que tem consciência do que faz. penso que a polícia já está na sua peugada, se desta vez funcionar. se não funcionar está comprovada a corrupção em moçambique.