segunda-feira, maio 21, 2007

O fenómeno da bicha IV

Acabo de ler uma notícia da autoria de Daniel Maposse, do Diário de Notícias, com o título “Muhate ‘caça’ crocodilos ... mas o povo pediu a construção duma ponte sobre o rio Umbeluzi para evitar o ataque desses répteis”. A notícia diz respeito a uma promessa feita pelo Ministro da Agricultura aos habitantes de Namaacha durante a visita recente do Presidente da República à Namaacha. O Ministro é citado como tendo dito “[A]queles crocodilos que matam pessoas no rio Umbeluzi, nós vamos caça-los, e iremos também recolher os seus ovos” (itálicos originais). É o fenómeno da bicha, isto é a incapacidade de ver que não somos a solução, mas sim parte do problema.

Não quero, é claro, dizer que a promessa não seja boa. Até gostaria que todos os Ministros reagissem assim a todas as queixas feitas pela população. “Há muito crime no nosso bairro!”, reclama a população de não-sei-onde e o Ministro do Interior diz, “não há crise, havemos de caçar todos os criminosos e estirilizar os seus potenciais pais”. Entretanto, a população de outro bairro grita “temos muita malária na nossa zona!” e o Ministro da Saúde retorque “não há problema, havemos de caçar todos os mosquitos e exterminar os ovos”. “Os juízes do nosso distrito urbano são corruptos!”, gritam outros populares; “sosseguem”, diz a Ministra da Justiça, “vamos caçar todos os juízes corruptos e distribuir Jeito pelos seus pais”. E por aí fora. Seria o governo mais eficiente e eficaz do mundo. É só o povo reclamar.

E é aqui onde está o problema. Porque é que o nosso governo insiste na ideia de que a solução dos problemas do povo passa pelo governo? Que filosofia política está por detrás desta ideia de que o governo e a sociedade estão numa relação paternal? Na mesma notícia que reporta as palavras do Ministro da Agricultura o Presidente da República é citado como tendo remetido as pessoas aos Conselhos Consultivos e aos 7 milhões. Será que o Presidente da República é o único no seu governo que percebe que o nosso País só vai andar se o Estado se libertar deste paternalismo exemplificado pelo Ministro da Agricultura? E, já agora, será que o Presidente da República chamou atenção ao seu novo Ministro da Agricultura?

E há mais. Será mesmo verdade que a única solução para o problema dos crocodilos seja a sua caça e recolha de ovos? E pelo Ministério da Agricultura? A pergunta que estou a colocar aqui não é só sobre a própria sugestão, mas sim sobre a base que se serviu de apoio ao Ministro para decidir que a solução era mesmo a caça e a recolha dos ovos. Apoiou-se apenas nas reclamações populares? Apurou a gravidade do problema na base das reclamações populares? Isso só chega para ele decidir que a solução é a caça e recolha de ovos? Sabe porque o problema é problema justamente agora? Aquela população é nova ali? Os crocodilos são novos? Como é que as populações e os crocodilos “conviveram” no passado? Qual é o problema que exige solução?

Aqui nem estou a levantar a questão institucional de saber se o Ministério da Agricultura é a instituição mais indicada para “resolver” esse assunto. Nem estou a perguntar o que vai acontecer quando, volvidos dois anos, o problema se mantiver. Isso havia de me remeter à fala sem consequências. O problema que queria levantar aqui é o problema de como as nossas coisas se complicam pelo facto de não haver clareza sobre como abordar problemas devido à desorientação dos que nos governam. O título da notícia é revelador. Os jornalistas acertaram.

2 comentários:

Bayano Valy disse...

Costuma-se dizer que quando o aluno esta pronto o professor aparece. Tendo reflectido sobre esse dizer popular, fico ainda sem entender quem e o professor ou quem e o aluno. Uma coisa confirma, no entanto, a ficar clara: os nossos governantes ainda nao aprenderam.

Elísio Macamo disse...

mas vão aprender. como eles próprios costumam dizer, "isto é um processo"...