Do uso irracional de meios
Aqui vou tactear na escuridão. Não sei de que meios dispõe a polícia. Não sei quantos carros, quantas armas, que efectivos, quantas esquadras, que orçamento, quantos escalões tem e não sei que mais conta para o seu trabalho. Não sei, nem sou o único que não sabe. Espero que o Ministro do Interior saiba. Espero que ele não só tenha resposta para estas perguntas como também saiba dizer com alguma certeza o que ele precisa para poder garantir que tipo de policiamento. Explico-me: Espero que o Ministro do Interior saiba dizer que tipo de segurança é que a polícia é capaz de garantir com base nos meios de que dispõe agora e, consequentemente, saiba também dizer do que precisaria para dar mais segurança. Espero, mas não ficaria surpreendido se ele não soubesse. A ignorância, pelo menos neste caso, não teria nada a ver com incompetência ou qualquer outro tipo de insuficiência individual.
A ignorância teria muito a ver com o facto de que, à semelhança de várias outras instituições do Estado, o Ministério do Interior muito provavelmente trabalha às escuras. É, por exemplo, sintomática a recusa do comandante da polícia em fazer o balanço provisório do crime. É citado pelo jornal o País Online do dia 23 de Dezembro de 2006 como tendo dito o seguinte: “Um balanço não se faz em um, dois ou três meses, porque precisamos de verificar se aquelas medidas que temos vindo a tomar têm algum impacto para a melhoria da segurança pública”, sublinhou. Entretanto, conclui fazendo um balanço positivo” quando instado pelos jornalistas. Não creio que a razão tenha alguma coisa a ver com o cuidado que é necessário ter para fazer o balanço. O comandante-geral da polícia não pôde responder à pergunta dos jornalistas porque, pura e simplesmente, ele muito provavelmente não faz a mínima ideia do que ele está a fazer no seu dia a dia profissional. Tudo indica que ele não tem noção do crime, não sabe do que precisa para o combater, não sabe do que precisa para melhorar o seu trabalho, enfim, não faz a mínima ideia da responsabilidade que o seu cargo acarreta. Está como nós a tactear na escuridão.
Se soubesse teria tentado responder à pergunta dos jornalistas. Teria especulado de forma inteligente. Teria dito algo como não poder falar com segurança, mas ser provável que o crime esteja assim e daquela maneira. Teria especulado de forma inteligente como qualquer profissional o faria se interpelado sobre as coisas que fazem parte do seu trabalho diário. E reparem uma coisa: é a este tipo de funcionários que nós confiámos a tarefa de nos dizerem do que precisam para fazerem o seu trabalho. São estas pessoas que volta e meia nos dizem que não têm meios, que enfrentam dificuldades materiais de vária ordem, que combater o crime não é brincadeira. E, de facto, combater o crime não é brincadeira. Até porque é muito perigoso, extremamente perigoso como, aliás, o desbandamento da unidade especial de combate ao crime revelou sem margem para dúvidas.
O melhor exemplo do uso irracional de meios é-nos proporcionado pela força chamada, na fala popular, de “Guebuzinhas”. Refiro-mo àquela polícia que surgiu logo depois da investitura de Guebuza no cargo de Presidente da República. Sim, aquela força policial que apareceu naquelas motorizadas chinesas cheias de luzinhas e que circulava aos pares pela cidade, sobretudo à noite. Quando estou em Maputo ainda vejo uma e outra motinha, mas não tantas quantas no início. Já ouvi dizer que algumas já nem estão a circular. Falta de peças. Falta de combustível. E não sei que mais. Não sei se é isso mesmo. Mas, mais uma vez, não ficaria surpreendido se fosse verdade que essa força está menos presente em resultado de problemas materiais. É assim na nossa terra. Usamos os poucos meios de que dispomos da forma mais irracional possível.
Aposto que ninguém se preocupou em definir claramente as competências daquela força e como ela se devia articular com os outros polícias. Aposto que ninguém se preocupou em saber se haveria garantia de logística para o seu funcionamento por um certo período de tempo. Aposto que ninguém tem a mínima ideia da diferença que essa polícia fez no que diz respeito ao policiamento, isto é quanta criminalidade preveniu, quantos casos controlou, que tipo de segurança devolveu aos citadinos de Maputo. Aposto que ninguém sabe nada disto porque está todo o mundo a reclamar que não tem meios, mas para quê ninguém sabe.
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