E pergunta: Porque é tão difícil aceitar uma crítica?
Proponho-me, nestas breves linhas, debruçar-me sobre o facto de se ter tornado tão difícil aceitar uma crítica em relação aos nossos estudos/investigações ou posicionamentos que tomamos no nosso quotidiano. Parto do princípio que não existem estudos/investigações que não nos suscitem indignações ou que não provoquem inconformismos. Em ciência, esse desconforto e indignação são suficientes para nos obrigarem a interrogarmos criticamente a natureza dos nossos posicionamentos. Ora, se a realidade é um campo de possibilidades e o conhecimento é sempre contextualizado pelas condições que o tornam possível, porque é tão difícil aceitar uma crítica? Ou ainda, como aceitar uma crítica?
Aqui, o desafio parece-me ainda maior sobretudo quando me lembro dos “calorosos” debates que surgiram no início deste blog bem como noutros espaços de debate: as críticas não eram bem vindas. Afinal o que significa criticar e/ou aceitar uma crítica? As explicações e desculpas às reacções críticas são várias: as acusações vão desde a desqualificação pura das ideias dos outros e, pensa-se que por detrás da análise crítica, existe uma afronta pessoal. Esse tipo de atitudes leva-me a crer que ainda carecemos de uma valorização do debate das ideias. Ainda não estamos preparados para um confronto de ideias. É paradoxal: teoricamente, falamos da necessidade e importância do conhecimento estar aberto à crítica, mas na prática não aceitamos esse princípio. Ainda não estamos propriamente abertos para o debate de ideias.
Sem querer tirar o mérito das reacções críticas, de modo geral, algumas dessas reacções às recensões críticas reflectiam a falta de compreensão, tendências para determinadas crenças e, sobretudo ideologias. Quer me parecer que em muitas dessas análises críticas falta uma distinção entre a objectividade e neutralidade de que tanto se fala nas ciências sociais. As análises feitas tendo em conta a objectividade decorrem da aplicação dos métodos de investigação que permitem fazer análises que não se reduzem à reprodução antecipada das preferências ideológicas. A objectividade permite identificar os pressupostos, os preconceitos, os valores e os interesses que subjazem à investigação científica supostamente desprovida deles. É esta objectividade que permite dar conta das diferentes e, por vezes contraditórias perspectivas ou posicionamentos que se defrontam quanto ao tema em análise. Todavia, nem a objectividade nem a neutralidade são possíveis em termos absolutos. A nossa atitude deveria ser a que se orienta para maximizar a objectividade e minimizar a neutralidade.
Se ao nos debruçarmos sobre uma análise crítica de um determinado posicionamento e começássemos por colocar algumas questões que nos pudessem orientar, reduzíamos certos equívocos que nos levam a algumas interpretações erróneas e extrapolações abusivas. Equívocos esses que ironizam e satirizam as ideias dos outros. A título de exemplo, se começássemos por questionar até que ponto é que na análise que fazemos estamos essencialmente a tentar estabelecer a validade de uma ideia pré-concebida de como os fenómenos deveriam ser ordenados; até que ponto aceitamos os resultados de investigações que vão confirmar os nossos próprios objectivos não atendendo aos que com eles são incompatíveis; até que ponto nos preocupamos essencialmente em encontrar ligações entre os acontecimentos sociais particulares para perceber como podemos explicar a sua sequência.
O sociólogo deveria libertar-se da noção de que existe uma correspondência necessária entre a sociedade que estuda e as suas próprias crenças sociais, os seus desejos e esperanças, as suas predilecções morais e as suas concepções. Esta atitude dos problemas sociológicos baseia-se na convicção de que não é relevante, nem permissível que estes dois problemas (ciência e ideologia/crenças) se misturem ou confundam. Há quem diga que é impossível separar as convicções preconcebidas de cada um da abordagem teórico-científica que se faz dos problemas. Contudo, é preciso um distanciamento. No que se refere à forma como encaramos as críticas como um fim em si mesmo e não o primeiro passo na apreciação do que essa reflexão pôde contribuir para a compreensão dos fenómenos, o distanciamento é a parte mais difícil. O desafio ainda me parece ser maior em aceitar uma crítica “no verdadeiro sentido”. Todo o conhecimento é prudente e suscita indignações em nós, o que nos leva a crer que deveríamos acolher de bom grado as interrogações que o mesmo conhecimento suscita.
1 comentário:
Rehana.
Estas de parabéns por este diagnóstico que fazes a maneira como reagimos as criticam no debate de ideias. Sinto, realmente, que temos que exercitar muito a nossa paciência e capacidade de aceitar ser criticado. Irritam-se com as criticas aqueles que estão habituados a enunciarem suas opiniões como se de verdades se tratassem. Essa é uma atitude da qual nem os consagrados escapam. Alias parece que este é quem maior susceptibilidade tem perante a crítica. Refiro-me no nosso contexto, Moçambicano. Querem saber quem disse, antes de saber o que disse. E se constatarem que de um ilustre desconhecido se trata, então, vem-lhe a desqualificação primeiro! Realmente, é muito difícil debater ideias nessas circunstâncias. A pessoas que tem fobia a critica, a apego aos elogios. É só percorreres a lista de comentários de alguns blogues e verás que só há reacções nos casos de palmadinhas. Se a reacção for de receptividade a critica é, muitas vezes, politicamente correcta e para o inglês ver.
Enviar um comentário