O problema aqui é capaz de ser a própria notícia. Extraí-a do País Online. Mas parece-me um exemplo claro de fala sem consequências. Não dizer coisa com coisa. Gostava de ler o discurso completo do Ministro para saber exactamente o que ele disse. Leiam a notícia e depois encontramo-nos mais abaixo para vos dizer o que eu gostaria de saber desse discurso:
Investidos 160 milhões de dólares no primeiro trimestre
04/09/2007
Moçambique recebeu, no primeiro trimestre do ano em curso, um investimento nacional e estrangeiro de 160,8 milhões de dólares norte-americanos. No mesmo período, as exportações de bens rondaram os 564,8 milhões de dólares, segundo o ministro da Planificação e Desenvolvimento, Aiuba Cuereneia.
O governante, que falava hoje, em Maputo, durante o seminário sobre “A experiência do Programa de Apoio aos Mercados Agricolas – PAMA –, disse que estes indicadores permitem afirmar de forma inequívoca que os fundamentos da economia moçambicana são estáveis, apesar do país enfrentar, ainda, grandes desafios na luta contra a pobreza, sobretudo nas zonas rurais.
Aiuba Cuereneia reafirmou a convicção de se continuar a priorizar o desenvolvimento rural, uma vez que traduzido pela transformação social e económica e consequente elevação do bem-estar no meio rural, é o esteio fundamental do desenvolvimento global do país.
Acrescentou que sendo a agricultura uma área vulnerável a crises originadas por factores climatéricos adversos, o Estado tem estado a investir na investigação e extensão agrária, bem como em outros serviços essenciais que garantam o acesso dos agricultores a tecnologias melhoradas, aos insumos agrícolas, equipamentos e ao crédito.
Relativamente ao encontro sobre o PAMA, o titular da pasta da Planificação e Desenvolvimento destacou que o Governo tem políticas específicas de redução da pobreza que consistem no aumento da participação da mulher rural em todos os níveis de decisão, redução dos níveis actuais de incidência do HIV/SIDA e garantir a preservação e a renovação dos recursos naturais.
A primeira coisa que eu gostaria de saber é simples: o que querem dizer os números apresentados pelo Ministro? Não acredito que a sensação esteja no facto de termos recebido investimentos na ordem de 160 milhões de dólares, nem termos exportado quase 565 milhões de dólares. Estes números só começam a falar se o Ministro nos disser que proporção do potencial de investimento nacional e estrangeiro esses 160 milhões representam. Que proporção do potencial de exportação representam 565 milhões de dólares? Aí sim, já estará a falar. Até pode nos dizer em que medida é que a sua política contribuiu para lograr isso. Agora, dizer só 160 milhões e 565 milhões é fala sem consequências. É falar sem dizer nada, sobretudo quando no parágrafo seguinte ele (ou o jornalista) diz que esses indicadores permitem afirmar de forma inequívoca que... passo por cima da continuação da frase, pois não percebo a relação entre estabilidade da economia, por um lado, e existência de grandes desafios na luta contra a pobreza. Não sou economista. Sobretudo nas zonas rurais. Não percebo.
Depois vem uma confusão típica entre desenvolvimento rural e desenvolvimento agrícola. Não me parece a mesma coisa, e acho estranho que o Ministro responsável pelo desenvolvimento rural aparentemente não tenha consciência disso. Ele quer priorizar o desenvolvimento rural – depois mete uma frase com inferências bastante crípticas no meio – e acrescenta que a agricultura é uma área vulnerável a crises originadas por factores climatéricos. Duas coisas aqui. Primeiro, a confusão entre desenvolvimento rural e desenvolvimento agrícola. Há ligação, mas tem que ser exposta. Isso não se faz no texto. Segundo, não há área nenhuma vulnerável a crises originadas por factores climatéricos adversos. Isso é eximir-se de responsabilidade. A natureza acontece. As crises são o resultado da ausência de acções de prevenção por quem de direito. Entre a natureza e as “áreas” está o homem. O homem é que traduz os factores climatéricos em crise pela sua acção ou inacção. Acho que um Ministro da Planificação e do desenvolvimento rural devia saber, no mínimo, isto.
Para finalizar, a última coisa que gostaria de saber é o sentido que faz uma hipótese de trabalho realmente exposta pelo Ministro: para reduzir a pobreza é preciso aumentar a participação da mulher rural em todos os níveis de decisão, reduzir os níveis actuais de incidência do HIV/SIDA e garantir a preservação e a renovação dos recursos naturais. Alguém percebe isto? O que leva o Ministro (ou o jornalista) a supor que essas coisas vão, imperiosamente, conduzir à redução da pobreza? E reparem que o mais essencial até nem é isso. O mais essencial é saber como é que são essas políticas específicas de aumento da participação da mulher rural em todos os níveis de decisão (curiosidade: quais são estes níveis?), redução dos níveis actuais de incidência (qual é o nível ideal?) do HIV/SIDA e garantia da preservação e renovação dos recursos naturais (como?). Fala sem consequências. Exonerar? Não dá, é do Norte.
5 comentários:
Excelente análise. A continuar assim, ganhas um título de Honoris Causa em Desenvolvimento Económico. De facto, essa notícia fere as regras básicas de apresentação de dados económicos/estatísticos, o que põe em causa as conclusões que daí advém. Os dados devem ser apresentados numa perspectiva evolutiva (seja, últimos 3 anos, ou no igual período do ano passado, etc.), numa perspectiva relativa, percentual ou proporcional, para avaliarmos o peso desse indicador. Também, tem que haver relação entre as variáveis. Quando avança um dado sobre investimentos, depois, exportações. Quererá dizer que tais exportações foram geradas pelo investimento indicado? Se sim, há problemas, porque essas exportações são fruto de investimento realizado no passado e não no período em análise ou mesmo a mais de 2 anos e meio. Seria melhor relacionar as exportações com importações, para determinar o saldo da balança comercial. Acredito que o governante tenha omitido as importações de propósito, visto que Moçambique é um importador líquido ou seja, andamos com uma balança comercial negativa (o que no geral, não é bom para a economia). Voltando para o investimento (é investimento realizado ou intenções de investimento?) é bem provável que este dado se refira ao investimento aprovado no período referido pelo Centro de Promição de Investimentos (CPI). Se sim, há problemas de novo na notícia.
o título interessa-me para poder leccionar na politécnica...
Consultei a "conjuntura económica" Nº35, Junho/2007: p7, publicada pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). As exportações no I Trimestre 2007, foram de USD 572,3 Milhões. A diferença com o Ministro deve ser na taxa de câmbio usada, mas o número gira a volta disso. Em relação ao trimestre anterior (IV Trim 2006) as exportações caíram em 12% e registaram um aumento de 7% em relação ao igual período do ano anterior. As importações foram de USD 679,3 Milhões, resultando num saldo deficitário da balança comercial (USD -107,0 Milhões). Este saldo teve uma recuperação de 40,1% em relação ao I Trim 2006, mas piorou em 173% se comparado ao trimestre anterior. Portanto, o valor das exportações lançado pelo governante, não é assim tão animador. Faltou dizer isto na notícia.
Da próxima vou analizar o valor do investimento no I Trim 2007 (USD 160 Milhões).
genito, obrigado. sabes que é esse rigor que faz falta na discussão? insista, por favor!
... esquecia-me: hoje é feriado. vai curtir o feriado, por favor...
Enviar um comentário