segunda-feira, setembro 24, 2007

A palavra (1)

A sorte da palavra

Um amigo filósofo dos Camarões, Jean-Godefroy Bidima, que agora lecciona nos EUA, publicou há alguns anos um livrinho com o título La Palabre. Lembrei-me deste livrinho e das discussões que tivemos sobre vários outros assuntos relacionados com o debate na esfera pública africana. No meio de uma discussão no blogue do Patrício Langa (ler aqui, aqui e aqui) sobre a presença pública do académico moçambicano fui buscar o livro da prateleira, sacudi-lhe o pó e reli-o para descobrir uma reflexão fascinante sobre o debate, direito e as condições do nosso desenvolvimento. É um excelente livro, ainda que em certos momentos da argumentação pese a motivação iconoclasta contra os grandes nomes da academia africana que guardam um silêncio ensurdecedor sobre o desaparecimento da esfera pública.

Bidima identifica a palavra com o político. Ele escreve que a palavra é mesmo o lugar do político. Quando falamos envolvemos os outros numa relação, pois a nossa fala tem um receptor, veicula significados e tem uma história. Bidima concentra a sua atenção na palavra proferida no momento de divergência e interroga-se sobre as suas condições de possibilidade. Ele quer saber quem fala quando, como, para quem e em que condições. Ele faz uma defesa apaixonada, e apaixonante, da palavra como o grande ausente da nossa esfera pública. Embora ele não o diga explicitamente, ele recupera, na verdade, uma tradição filosófica que desapareceu da Europa no limiar da Modernidade no século XVII e que insistia, tal como o fez Aristóteles, por exemplo, no lugar central que a retórica devia ocupar na apreensão do mundo. Essa tradição, a tradição de Bacon, Montaigne, mas também de Vico, todos eles insistindo na impossibilidade da certeza, recebeu duros golpes de Descartes e do racionalismo que se apoderou do pensamento intelectual. E com a aliança infâme que o racionalismo fez com o colonialismo e com o etnocentrismo, a retórica desapareceu completamente. No seu lugar impôs-se a Lógica com “L” maíusculo, um sistema de produção e validação de verdades transcendentais. Bidima não diz isto, mas é evidente que ele não é indiferente a esta genealogia. Ele diz, e provavelmente com razão, que o poder colonial vai ser um dos primeiros carrascos da palavra em África, seguido de uma autoridade tradicional instrumentalizada para esse efeito – e que é ressuscitada pelo Ministério da Administração Estatal sob mau aconselhamento académico no nosso país – e, claro, do unanimismo de partido único que se abateu sobre a África independente com o canto de cisne da preservação da unidade nacional.

Eu acrescento a esta lista de carrascos sugerida por Bidima as boas intenções da indústria do desenvolvimento que, também, se impõem como critérios de validade em toda e qualquer tentativa de recuperar a “verdade”, uma verdade, está claro, circular, artefacto dessas boas intenções. A insistência com que alguns dos nossos governantes continuam a dizer que a universidade deve participar na luta contra a pobreza absoluta produzindo empreendedores – nas palavras do Reitor da UEM (ler aqui) – ou dando soluções aos nossos problemas mantém em vida uma visão moribunda da ciência que é responsável pela asfixia da nossa humanidade. Pessoas muito mais esclarecidas do que eu disseram isto. Refiro-me a Richard Rorty e John Dewey, dois grandes filósofos americanos, que acusaram Réné Descartes de ter conduzido a filosofia para um beco sem saída. A visão de ciência veiculada pela indústria do desenvolvimento e retransmitida por alguns dos nossos governantes mantém-nos na rota desse beco sem saída com toda a convicção missionária que esquemas totalitários precisam. Se não estamos mal...

Reli o texto de Bidima para me situar no debate em que estava a participar. Através das interpelações críticas e bastante oportunas de um comentador anónimo vi-me obrigado a reflectir um pouco mais sobre a nossa esfera pública e sobre o papel que o académico moçambicano pode desempenhar nele. A razão de toda a discussão foi um comentário por mim feito sobre a miséria (uso esta palavra propositadamente para evocar o espírito de Marx) da nossa academia que não se faz presente na esfera pública. O comentador anónimo chamou-me atenção para o facto de que o silêncio não precisa de significar estupidez ou cumplicidade; disse também que quando uns falam demasiado (o meu caso, por exemplo) acabam, inevitávelmente por inibir outros de participarem. Concordei instintivamente com estes receios, mas dei-me também conta de que esse é que é justamente o problema. Com o silenciamento histórico dos nossos povos a academia sobrou, ou emergiu, como o único espaço ainda capaz de preservar a palavra. Mas se nem mesmo ela é capaz – ou não tem nenhum interesse – em usar da palavra, onde é que o nosso país vai terminar (ver aqui esta achega de Bayano Valy)? Que melhor argumento pode haver para a tese aventureira daqueles que têm uma visão instrumental da ciência senão este silêncio que se torna cúmplice? Quando num país com juristas de grande qualidade nenhum deles se levanta em defesa do Estado de Direito quando os seus princípios são violados pela polícia (ao apresentar “criminosos” publicamente, ler aqui) que dizer do estado da nossa intelectualidade? Quando num país com grandes economistas nenhum deles ergue a sua voz para contradizer o Ministro das Obras Públicas quando este diz que a privatização do abastecimento de água é a melhor forma de garantir o abastecimento à população, que dizer do estado da nossa intelectualidade? Quando os sociólogos e antropólogos viram meros oportunistas repetindo até à exaustão palpites mal pensados sobre HIV-SIDA, corrupção e autoridade tradicional, que dizer do estado da nossa intelectualidade? E reparem: não estou a dizer que o intelectual é aquele que critica os governantes ou critica tudo o que se mexe. Nunca defendi essa tese. Estou a dizer que um intelectual é aquele que estimula o debate de ideias, devolve a palavra à esfera pública que é lá onde ela pertence.

O académico não sabe mais do que os outros. Mas ele pode trazer os assuntos a debate. Hoje, o debate intelectual anda escondido nas cabeças das pessoas, em conversas entre amigos ou em seminários na Presidência – portanto, longe da esfera pública, longe da “B’andhla” que é onde devia pertencer – para ser julgada segundo critérios alheios ao que verdadeiramente faz avançar a ciência e o pensamento crítico. Ao longo das próximas postagens quero reflectir sobre estes problemas do desaparecimento da palavra da nossa esfera pública como forma de estimular uma introspecção séria por parte de cada um de nós.

6 comentários:

Aguiar disse...

Excelente texto Elisio, como sempre. Mas para nao fugir à regra – maria questionadora- eis-me aqui a colocar-te algumas questoes. Primeiro, o que é o “silenciamento historico dos nossos povos”? segundo quando é que o silencio se torna de facto cumplice? Nao sera, tambem, o silencio, uma forma manifesta de impotencia? Impotencia esta sufocada na voz que dà corpo à palavra? A voz de “quando, como, para quem e em que condições” Quem tem condiçoes de usar a palavra? Vais-me responder todo o mundo é livre de usa-la. Okay, obrigado. Sera que todo o mundo se faz escutar? Ficar silencioso é uma escolha ou uma imposiçao? Entao, neste caso, ja nao é a palavra que esta no centro da discusao, mas o “corpo” enqto condiçoa de possibilidade de “existencia” da palavra. Qdo digo “corpo” nao me refiro simplesmente à estrutura biologica do individuo, mas referimo-me ao “quem, qdo, como, e em que condiçoes”. E, nesta ordem de ideias pergunto-me se “a palavra” estara de facto ausente da “nossa esfera publica”. Nao creio Elisio. Bem ao contrario, acho, até, que ha mesmo excesso de “palavra”.
Senao vejamos, que os intelectuais sejam vigilantes, que eles alertem, que eles intervenham na esfera publica é, sem sombra de duvida, fundamental em nossas sociedades. O facto que um Elisio Macamo ,“abra a a boca” é, decisivo, e repare que nao entro em contradiçao com o seu anonimo (pronunciar-me-ei, sobre este, mais tarde) disse. No entanto, hoje, proliferam uma multiplicidade de vozes, na nossa esfera publica: vozes caladas, vozes faladas, vozes escutadas, vozes reprimidas , vozes ridicularizadas...
O somatorio de todas essas vozes dao, a meu ver, concerteza, um “excesso de palavra”. E esse excesso, é tao, mais notorio, qdo vemos por exemplo a quantidade de intelectuais que pululam a blogosfera moçambicana (sinto mto, mas, sao os unicos exemplos que posso dar) e vou buscar propositadamente o do intelectual (nao sei se é academico) Mabunda, que usa de forma consideravel a palavra, veiculada e gravada em varios suportes fisicos. A palavra de Mabunda estimula, assim o debate de ideias, devolve a palavra à esfera pública que é lá onde ela pertence... mas, pelo que julgo observar, a palavra de Mabunda, é ridicularizada, por uns e ignorada por outros, lembro-me aqui de memoria de um post de Patricio Langa. Sera que o problema é mesmo défice de palavra? Sinceramente nao creio. Parece-me, sim, que ha muitos grupos e até pessoas individuais que fazem uso da palavra. O que me leva, a pensar, por conseguinte, que nao ha, um défice de “tomada” de palavra nas nossas sociedades, mas sim um “défice de compreençao”. Querer pensar, que a vida intelectual se concebe, a priori, como uma especie de resitencia manifestada pela “tomada” de palavra, vigilante e atenta, nao nos fara esquecer que a verdadeira acçao do intelectual é antes de mais um trabalho de analise e um trabalho de compreensao da realidade? E para isto é necssario, abrir espaço para a palavra falada e a palavra muda,? Como criar este espaço? Nao sera atraves da confiança, confiança no sentido de A. Giddens, vista como, uma especie de “fé” na qual a segurança de resultados provaveis exprime mto mais um engajemento do que um compromisso de ordem cognitiva.? Sera verdadeiramente a academia o unico espaço capaz de preservar a palavra? Preservar a palavra significa, penso, escrever, escrever livros, publica-los, e isto, implica, trabalhar,trabalhar e trabalhar, pensar, analisar, reflectir; os individuos que estao actualmente na “tua” academia querem de facto fazer isto elisio? Parece-me, Carissimo, que o problema nao esta nem na academia, nem na palavra... O problema esta em saber qual é a real motivaçoa dos individuos, que estao na academia, porque estao na academia, sera que querem seguir verdadeiramente a investigaçao, ou sera que querem ganhar dinheiro e/ou prestigio?

Eugénio Chimbutane disse...

Caro aguiar veja a outra face da moeda (creio eu) no meu comentário no blog de Bayano Valy "Quo vadis intelectuais públicos moçambicanos? de 21/09/2007. Também referenciado neste post. Elísio, conheces as nossas fraquezas, favor nos corrija se for necessário.

Aguiar disse...

Caro Eugenio, confesso que embora ja tivesse lido o post de Bayano, nao me tinha aprecebido do seu comentario, pois foi feito esta manha, quase à mesma hora que Elisio postou. No entanto acabo de lê-lo e acho-o mto interssante. Contudo fiquei sem saber se os dois comentarios (o seu e o meu) sao de facto antagonicos ou complementares... nao o entendo, em abono da verdade. Se quiser ser um pouquinho mais explicito agradeço-lhe antecipadamente.

Contudo nao pude deixar de esboçar um sorriso ao ler a sua ultima frase...pois, creio que pode servir de exemplo à ideia segundo a qual uma das causas do empobrecimento da esfera publica é a falta de disponibilidade para escutar o “desconhecido” isto é, a esfera publica é selectiva, na sua capacidade de escutar, compreender e apreender... assim sendo, por vezes, a esfera publica nao escuta a “palavra” mas o corpo que a “veste”, o que por si so nao tem mal algum, nao fosse o facto de poder, eventualmente, limitar o debate...

Elísio Macamo disse...

olá iolanda, excelentes perguntas. obrigado. este é o primeiro texto de uma série de cinco já escritos. aqui faço o levantamento das questões que me parecem pertinentes. tenho a impressão de que nos textos seguintes tento reflectir sobre algumas das questões que levantas. vamos ver, depois comentas. o que não está explícito nesses textos é a tua última observação sobre a motivação. na verdade, a minha preocupação é de saber como as pessoas podem observar o que é do pelouro académico e intelectual mesmo tendo em conta as várias motivações que pode. legitimamente, haver. por exemplo, iolanda, um assaltante de bancos quer ganhar dinheiro para viver bem. já que não serei eu a impedi-lo de ter esse desejo, posso pelo menos esperar que ele assalte bem os bancos. para mim já é bom que a gente tenha esta discussão sobre critérios.
acho que o eugénio chimbutane estava a tentar ilustrar algumas das coisas que este debate suscita com exemplos empíricos. portanto, vejo complementaridade.

Patricio Langa disse...

Gostei muito do comentário da Iolanda Aguiar. Como disse o elísio fez perguntas interessantes. A mim remeteram-me logo para a “Ordem de Discurso” do grande filósofo Francês da História do Pensamento, Michel Foucault. Leiam estas passagens, extraídas dos meus cadernos de anotações de leituras sobre Foucault, depois vem a minha pergunta para o E.M.

“É esta a hipótese que eu queria apresentar, esta tarde, para situar o lugar — ou talvez a antecâmara — do trabalho que faço: suponho que em toda a sociedade a produção do discurso é simultaneamente controlada, seleccionada, organizada e redistribuída por um certo número de procedimentos que têm por papel exorcizar-lhe os poderes e os perigos, refrear-lhe o acontecimento aleatório, disfarçar a sua pesada, temível materialidade”.


“Qualquer coisa é dita. E talvez antes de procurarmos dizer o que é que isso, isso que foi dito, quer dizer, ou como, como é que isso foi dito, ou ainda, o que é que foi feito ao dizer isso, quando se disse isso, e na medida em que foi isso, isso, e não outra coisa, que se disse, antes de procurarmos descrever o sentido, o modo e a acção do que foi dito, talvez, antes de tudo disso, seja necessário responder a esta questão: por que é que foi dito isso, isso exactamente, isso, e não outra coisa, que teria sido, até, possível dizer? Responder à questão: o que é que tornou possível dizer isso?”

“Evidentemente que a resposta a esta última questão não anula todas as outras questões anteriores e, claro, todas as respostas a essas questões. Parece é que todas as questões que se dirigem ao discurso perguntando-lhe sobre o seu sentido, o seu modo e a sua acção tendem normalmente a esquecer esta última questão, como se a possibilidade de falar fosse uma evidência, e como se não acontecesse nada no discurso senão uma ausência, originária ou de superfície, ausência que o trabalho analítico teria de descobrir e colmatar. «Não se pode falar em qualquer época de qualquer coisa; não é fácil dizer qualquer coisa que seja nova» escreve Foucault em A Arquelogia do Saber Savoir, Gallimard, E, da mesma maneira, não se pode vir dizer, vir dizer depois, aquilo que não se disse numa dada época, aquilo que ela poderia ter dito. Não é isso que se diz quando se responde à questão sobre o que é que tornou possível dizer isso. Isso foi dito, está dito: aconteceu.”.

A “Palavra” de Bidima, como acto político, pode ser entendida no mesmo sentido do discurso de Foulcault? Bidima, considera, como foucault que a fala não é aleatória? Que a a “palavra” é controlada, seleccionada, organizada e redistribuída...?

Elísio Macamo disse...

boa interpelação, patrício, obrigado. foucault tem um lado conspiratório que não me agrada muito. penso que ele tem razão em chamar a nossa atenção para os regimes de verdade que tornam a palavra possível. a pergunta que eu acho que ele não responde satisfatoriamente é de saber se estamos condenados a um determinado tipo de regime de verdade. creio que ao recuperar o sentido retórico bidima está a tentar mostrar que através da palavra podemos ser nós a construir um regime de verdade. sei que é uma posição algo romântica, mas se calhar é a única maneira que temos de reclamar protagonismo nas coisas da vida. para as ciências sociais esse espaço de indeterminação constitui o campo de discussão metodológica. afinal, a palavra é apenas a sugestão de mundos possíveis que nós, com os nossos métodos, limitamos e reduzimos.