terça-feira, setembro 25, 2007

A palavra (2)

A natureza política da palavra

Na postagem anterior fiz referência a uma sugestão de Bidima, um filósofo camaronês, de olhar para a palavra como o lugar político por excelência. Nesta postagem quero aprofundar essa ideia. Recordemo-nos que Bidima fez essa sugestão com base na própria constituição da palavra. Ela tem um emissor; o emissor tem um receptor; ambos têm um contexto dentro e a partir do qual emitem ou recebem; enfim, a palavra envolve-nos, tece relações, convida-nos a sermos mais precisos em relação ao que evocamos com ela. Referimo-nos ao mesmo? Como o sabemos? E o que nos leva a supor que a forma como sabemos uma determinada coisa justifica o que sabemos? E mais: a constituição da palavra revela relações de poder ou, para ser mais preciso, autoridade e obediência. Quem pode falar? Quando? Como? De quê? Eu, pelo menos, concordo com esta sugestão de Bidima de olhar para a palavra como o lugar político por excelência.

A tradição jurídica do sul de Moçambique – e suponho também de outras regiões de Moçambique – assenta na troca da palavra. Esta troca ocorre num lugar muito específico, nomeadamente a “b’andhla”. Há um ditado muito interessante a este respeito: nenhuma pessoa pode ser censurada por cair ou ser julgada culpada na b’andhla. Traduzi mal, mas propositadamente, a palavra “cair”. É uma tradução literal do original “ku wa” (xangan) que, na verdade, é metafórico no sentido de quem cai por causa de tonturas provocadas pela ingestão de uma poção mágica que verifica quem diz a verdade. Mas o ditado é ainda mais complicado. O que ele quer realmente dizer, e isto é confirmado por vários outros ditados relacionados com a “b’andhla”, é que nenhuma pessoa deve ter vergonha de dizer o que pensa por medo de estar enganada. O engano ou erro nessa tradição jurídica, uma tradição retórica – e não só por ser oral – não é necessariamente algo anterior ao acto. O debate é que vai estabelecer se o que a pessoa fez constitui um erro ou não. A pessoa tem que se expor ao debate, trocando palavras e dando contornos firmes ao mundo através do uso que faz da palavra.

As igrejas protestantes, sobretudo a presbiteriana, a metodista, a baptista e a wesleyana, preservam na sua estrutura orgânica elementos importantes desta tradição. Tive o privilégio de fazer pesquisas durante algum tempo no seio de uma comunidade presbiteriana e supreender-me pelo sentido apurado de retórica que torna aquelas comunidades possíveis. Atribuo até à preservação destas tradições nestas igrejas o sucesso da democratização do país na sequência dos Acordos de Roma. Não foram as campanhas de educação cívica que introduziram as pessoas à democracia eleitoral. Foi, isso parece-me mais do que certo, a tradição da palavra nestas comunidades, ela também herança da tradição da palavra na nossa sociedade. A Frelimo ainda beneficiou destas tradições no período imediatamente a seguir à independência quando as pessoas aderiram ao seu grito de democracia popular antes de se aperceberem de que era possível “cair” nas reuniões dos Grupos Dinamizadores.

Entre 2001 e 2006 fiz pesquisas na periferia da cidade de Xai-Xai. Como parte dessas pesquisas gravei algumas discussões de grupo que analisei com recurso a técnicas próprias da sociologia. Na sociologia alemã existem várias técnicas de análise de protocolos desta natureza. Uma delas é defendida por um grande sociólogo alemão, Ulrich Oevermann, de Frankfurt, e consiste essencialmente na ideia de que o contexto é irrelevante para esse efeito. Para provar isso, mais uma vez, ele pegou nas minhas transcrições das discussões de grupo e reconstruiu, com sucesso, diga-se de passagem, o sentido do que os habitantes da periferia de Xai-Xai estavam a discutir. Mas mais importante do que isso, Oevermann ficou extremamente impressionado, no texto que ele produziu com essa análise, com a capacidade retórica dos intervenientes nessa discussão de grupo e concluiu, algo anacronicamente como eu diria, que estava perante uma sociedade com um profundo sentido de debate e de troca de ideias.

Digo algo anacronicamente porque a minha experiência da esfera pública em Moçambique é de que estamos a perder estas qualidades. É verdade que o povo, ou melhor, a “população”, continua a debater nesses espaços periféricos que ocupa – ou é obrigado a ocupar. Mas ninguém está a ouvir. Ninguém está interessado. E o pior de tudo isto é que essa perda da palavra na periferia – porque marginalizada – não é compensada pela sua recuperação no centro. No centro ninguém faz uso da palavra porque, contrariando o ditado já mencionado, muitos têm medo de “cair”. “Cair” é outra vez metafórico: têm medo de desagradar; têm medo de perder o pão; têm medo de dar a entender que pertecem ao outro lado; têm medo. Simplesmente medo. Ainda vou me debruçar sobre isto mais adiante. Para não misturar assuntos gostaria apenas de acrescentar que não é difícil ver porque a nossa política é pobre. Não quero com isto dizer que os nossos políticos são uns burrinhos que isso não corresponde à verdade. Quero apenas dizer que não partilhamos o mesmo mundo, não temos as mesmas referências, enfim, fazemos de contas que estamos a falar das mesmas coisas quando, na realidade, estamos simplesmente a repetir banalidades que não nos vinculam a nada, não nos articulam com os outros, não nos devolvem nada de concreto. Papagueamos. Sim, papagueamos, irreflectidamente.

8 comentários:

Aguiar disse...

Elisio seria interessante se nos podesses explicar brevemente como é que se organiza o debate “nesses espaços periféricos”. Estou aqui a pensar que a tua “B’andhla” deve ser o equivalente da “l’arbre à palabre” em alguns paises da Africa francofona. Em alguns desses casos, existem mecanismos de controle do “discurso”. Consequentemente, seria interessante saber quem de facto tinha “direito à palavra” na pereferia. Como é que essas discusoes eram organizadas, enfim quem detinha a “ultima palavra”, como soi dizer-se.

Recuperando a ultima questao de Patricio Langa no comentario precedente, seria necessario saber se na tua “ tua “B’andhla”” a “palavra”, nao é, de facto, controlada, seleccionada, organizada e redistribuída...? e sobretudo, de que maneira era a “palavra” redestribuida na periferia, Quais eram as regras e normas de distribuiçao dessa “palavra”? Mais, como é que a “palavra” é redistribuida actualmente na periferia. finalmente, como é que o “discurso” se dilui no centro e porquê. Qual é a relaçao entre a regulaçao do “discurso” na periferia e a regulaçao do “discurso” no centro?

:)
Noa sao mtas perguntas Elisio, sou eu que nao tenho capacidade de sintese.
cumprimentos

Elísio Macamo disse...

iolanda, muitas perguntas, e boas, são melhores do que muitas respostas, e más. portanto, vá perguntando e ajude-me a formular critérios que nos permitam encontrarmos respostas plausíveis. pergunte que tipo de resposta te satisfaria, porquê e se é possível chegarmos a acordo sobre isso. pergunte também em que condições poderíamos chegar a acordo. pergunte, pergunte, pergunte que é bom. continuo, contudo, a dizer que algumas das tuas perguntas vão antecipando os textos. paciência, por favor. sobre a "b'andhla" suponho que se possa descrever como a "palaver" da áfrica ocidental. não vou romantizar a coisa, mas a sua essência consiste na ideia de um lugar (debaixo de uma árvore por causa da sombra, mas também pela sugestão de fertilidade, crescimento, etc.) onde a comunidade discute abertamente os seus problemas. em princípio não há constrangimentos ao debate, embora o facto de se tratar de um fenómeno social que ocorre em meios onde há acesso diferencial ao poder possa fazer com que surjam, historicamente, limitações. a minha referência à "b'andhla" não quer idealizar esta instituição. na verdade, estou interessado em recordar que temos memória de um espaço público e quero fazer um contraste com a situação actual em que a comunidade já não participa neste espaço público. estou a criticar os nossos sistemas políticos que excluem uma boa parte dos seus cidadãos em virtude da própria natureza dos temas que discutem. estou preocupado com o facto de termos, nas nossas sociedades, dois espaços públicos, a saber o espaço formal onde se produz eco (estou a pensar na ideia de simulacro do baudrillard do livro que me ofereceste) e o informal onde as populações falam dos seus verdadeiros problemas. estou preocupado com este dualismo e pergunto-me se nós os académicos não poderíamos contribuir com o nosso conhecimento para tornar o nosso mundo mais coerente e intelegível.

Aguiar disse...

Nao Elisio, Neste caso , a minha questao prende-se apenas com a hierarquizaçao do discurso, no seio da“B’andhla , da “ l’arbre à palabre”, independetemente do “romantismo” que possa ou nao, envolver as duas situaçoes. E porquê? Simples, pensava justamente (o que alias venho pensando ha ja algum tempo) porque é que os jovens que sugeriram que se criasse este espaço – “ideias criticas” – neste caso a “nossa” “B’andhla ou a “nossa” l’arbre à palabre (arvore de discusoes) nao tomam assento de “baixo da arvore” [lugar de discusao] neste caso o blog, para participarem nas discusoes do “village” [lugar de destino] neste caso a academia, ou se quisermos ir mais longe o país - Moçambique. Assim sendo, ao interpelar-te desta forma, pergunto-me, tbem, se posso faze-lo? Embora, aparentemente tudo indique, ser desejavel, haver participaçoa da “comunidade” – no caso os utentes deste espaço (leitores, observadores, interventores) enqto consumidores de informaçao...

Enfim, ao interpelar-te, posiciono-me simplesmente como “sujeito de pesquisa” ou se quiseres “sujeito de analise”. Posso eu interpelar-te? Como devo interpelar-te? Posso usar da” palavra”? Ou devo apenas absorvê-la? A forma como te interpelo confere-me um lugar debaixo da arvore? i.é passo a fazer parte da “comunidade”? Ou sera que passo a ser um instrumento de cisao dentro da “comunidade”? ou, bem ao contrario, chamo a atençao dos membros da “comunidade” para o seu (deles) lugar de destino e/ou para o seu lugar de discusao. Ou entao, até, nao tem influencia alguma?

Enfim para que me dou a esta maçada toda? embora ninguem me tenha pedido, nem me tenham convidado, entrei, tomei um lugar – sentei-me, e “imagino” ter participado na discusao –palabre.

O que estou a fazer neste momento nao mais é do que uma “satira” no bom sentido da palavra... com o intuito de chamar a atençoa das pessoas para quem este blog se destina a tomarem o seu [lugar] debaixo da arvore, sem nehuma especie de “romantismo”. Quisera eu, ter tantos espaços assim, tantos e tao bons espaços, como voces têm para poder discutir o meu País, espaço de discusao e de formaçao, exercitorio de ideias, antes por exemplo, de uma boa publicaçao. Ou se preferirem [lugar de ensaio] ( a figura que me veio ao espirito foram os tubos de ensaio nas aulas de quimica) lugar de ensaio, dizia eu, que antecede à perpetuaçao da palavra, num outro suporte fisico – os livros.

Poderia vos ter poupado de todo este bla-bla-lba, e ter perguntado simplesmente, porque é que a comunidade à qual este blog se destina, nao paticipa na “cité”? Porque que os jovens formados em sociologia “desejosos de ter um espaço de troca de ideias sobre a sua actividade e formação” estao ausentes do seu proprio espaço? [lugar de discusao] que é o deles, que foi carinhosamente criado, pensando neles? E esta é uma pergunta que me ocorre ha ja algum tempo, como, ja tive opurtunidade de dizer, e reflito sempre à luz da “palabre” do meu amigo Bidima.

Em jeito de conclusao, e com a promessa de nao mais intervir até às suas ultimas postagens, relativamente a este assunto, lembro aos colegas moçambicanos que em Sao Tomé e Principe, a primeira universidade, nasceu, apenas em Outubro do ano passado. Dar-se-ao vocês conta, Caros Colegas, da vantagem que possuem?

Bem, cresci ouvindo o meu pai dizer, “se concelho fosse coisa boa, nao se dava, vendia-se”. Ainda assim ... deixo aqui o meu testemunho. é so isto.

Elísio Macamo disse...

bom, iolanda, é evidente que não vou ser eu a responder a essas perguntas. nem sei se é preciso responder às perguntas. acho suficiente que tomemos o questionamento como uma forma de clarificar as nossas abordagens e pensamento. esse parece-me ser o princípio fundamental da ocupação académica. devo, contudo, dizer em defesa dos jovens que se estão a formar em ciências sociais que o facto de eu lhes dedicar um espaço não os obriga a utilizá-lo. acho pena, mas as coisas são, infelizmente, assim. depois há toda uma série de blogues que foram surgindo e que diversificaram os espaços. agora, se é por medo de mim que não participam, bom, que fazer? só posso dizer que me afirmei insurgindo-me contra alguns dos meus professores. mas isso tudo faz parte do debate. o debate livre não significa que não haja jogos de poder. há sempre, mas são negociados, luta-se, conquista-se espaço. cada um de nós tem a possibilidade de definir o lugar que quer ocupar no debate. isso inclui, por exemplo, tomar a decisão de não mais intervir até às últimas postagens.

Aguiar disse...

so um reparo, nao quis dizer que os colegas têm “medo de ti”... embora até tivesse dialogado com eles, neste espaço, embora até continue a dialogar com alguns deles, fora deste espaço (entenda-se espaço da blogosfera moçambicana), nao estou em posiçao de eleger o "medo" como justificaçao à ausencia dos colegas de um dos seus "lugares de discusao" e nao quero fazê-lo. Fazê-lo, seria limitar o debate, faze-lo seria fechar o debate, sem nenhuma possibilidade de discussao, e, outrossim, retirar a devida importanacia à construçao de minha argumentaçao, ou se preferires de meu comentario, que pretende ser, muito mais consubstancial... ao posicionar-me, como sujeito de analise... pretendo ir mais além... e é assim que talvez, junte a minha à tua voz criticando, para além dos nossos sistemas políticos, o individuo, o Homem que se auto-exclui, em virtude de n motivos, podendo incluir a natureza dos temas que discutem, mas tbem como ilustrou e bem Eugenio, no comentario ao post de Bayano (ja aqui referenciado) por questoes economicas, ou pela falta de um quadro institucional que lhes permita sentirem-se em segurança, e ai ia cair na “confiança” e tudo que ja disse no primeiro comentario. Pouco importa, o facto é que o individuo se auto-exclui-se. A auto exclusao, per si, pode ser voluntaria ou obrigatoria....

bem, para para me despachar, pois o comentario ja vai longo, penso que tudo isto vai para além do simples “medo” tenho por hipotse, que se prende, com o sistema de organizaçoa da “discusao” enqto tal na periferia e sua consequente “presença latente” ao centro. o meu olhar, focaliza-se, nos sistemas de contrôle de tais espaços de discusao.

Entretanto, por uma questao de respeito (pressao das normas exercidas pela “minha” “B’andhla ou a “minha” l’arbre à palabre , sobre mim) e uma vez que me havias dito, que escreveste os artigos “au préalable”, penso que sera cordato, esperar para ver!


Amh, so mais uma coisinha, porque é que o Elisio tem que defender os jovens, porque é que o Elisio tem que falar em sua [deles]defesa ... nao é um processo de juridisçao, é, tao somente, um convite, ao dialogo, ao debate, à produçao de conhecimento, se quiseres. é tudo. Sera a pressao das normas exercidas pela pressao das normas exercidas pela “tua” “B’andhla ou a “tua” l’arbre à palabre , sobre ti proprio ? :) em vez de sangue devem circular perguntas nas minhas veias :)

cumprimentos

Elísio Macamo disse...

oh, iolanda, deixa que seja sangue a circular nas tuas veias. cada coisa no seu lugar... "em defesa dos jovens..." é um recurso estilístico da minha parte que quer dizer o mesmo que "a minha explicação para o facto de eles não.. é". portanto, não é necessarimente "defesa" embora não veja mal nenhum em defender. acho que essa atitude também de sentir que eu posso defender ou que as coisas dependem de mim faz parte da possibilidade do debate. nenhum debate começa do nada, mas isso não significa que as regras não possam ser negociadas. agora, eu tenho algumas reticências em atribuir ao debate na blogosfera o estatuto de padrão daquilo que pode ser o debate na esfera pública mais alargada. até antes de ontem, por exemplo, tinha uma limitação à participação anónima. por inépcia informática desactivei essa função e agora não tenho tempo para descobrir como anular isso. aí o debate vai ganhar outros contornos, mas que remédio! enfim, o debate não é só o conteúdo, mas também a forma. aí faz sentido insistir, como aliás tu o fazes, na organização da discussão. devo também acrescentar que neste blogue não estou muito interessado em respostas. interessam-me perguntas, perguntas bem formuladas que me obriguem a reflectir melhor sobre seja o que for.

Aguiar disse...

Oi. Qto "reticências em atribuir ao debate na blogosfera o estatuto de padrão daquilo que pode ser o debate na esfera pública mais alargada..." Talvez Patricio Langa nos possa ajudar, pois ele fez uma comunicaçao recentemente sobre este tema, no Brasil...
Patricio quer dizer de sua justiça? Agradeço antecipadamente.
saudaçoes cordiais.

Aguiar disse...

Bom dia professor Macamo, por favor dê uma olhada neste site:

http://www.laviedesidees.fr/spip.php?article2

nao se pode fazer algo semelhante para o espaço lusofono? criar um lugar de circulaçoa e de produçao de ideias, guardando a especificidade de cada pais e extrapolando ao mesmo tempo o limite das fronteiras. facilitaria a tarefa a pessoas que como eu que vem de paises pequenos e sem estrutura alguma de suporte. Ao invés de disperdiçar energias a combater os gigantes deste mundo, canalizaria essa energia para a produçao de ideias. Afinal ha tanto que fazer no espaço lusofono... seria preferivel de arragaçarmos as mangas e trabalharmos...