terça-feira, maio 22, 2007

Fala sem consequências VIII

Escrevi este texto já há algum tempo, mas esqueci-me de o colocar. Aí vai. É boa introdução ao tema que quero abordar nos próximos dias, nomeadamente como combater o crime.

A fala sem consequências é também resultado de perplexidade perante os desafios da governação. A nossa máquina estatal não é eficiente, sobre isto até há consenso geral. Desde há uns bons anos, sobretudo com a reforma do sector público, que se tem dado muita importância a este problema. Não concordo, porém, com os que atribuem a falta de eficiência à maldade natural dos “corruptos”, embora esteja ciente do facto de que a própria estrutura da máquina administrativa possa, em certas condições, encorajar tipos de comportamento susceptíveis a esse tipo de acusações. Penso que a impressão de “corrupção” e desleixo propositado é, de facto, criada pela falta de imaginação na gestão do aparelho estatal.

A notícia que reproduzo do Jornal O País Online, sobretudo o parágrafo que destaco, dão-nos algumas indicações de onde reside o problema. Leiam a notícia primeiro e encontramo-nos mais abaixo:

Regulamento para polícia comunitária atravessa fase final

29/04/2007

Está na fase final a elaboração do Regulamento do Policiamento Comunitário que pretende especificar o ofício entre esta força e a Polícia da República de Moçambique - PRM, uma vez que se constatou a existência de choques entre ambos. A informação foi tornada pública, sábado, pelo comandante da PRM a nível da cidade de Maputo, Luís Mangueza, que garantiu que até finais do presente semestre o documento deverá entrar em vigor.

Presentemente, as autoridades da Ordem e Segurança estão a realizar seminários, em todo país, junto das populações, através dos quais recolhem informações para a produção do documento. Concretamente a este processo de auscultação os resultados serão conhecidos após a realização da conferência do policiamento comunitário previsto para Junho.

A polícia comunitária foi instituída há quase uma década com objectivo de apoiar a polícia nacional no combate ao crime. Os agentes que integram esta autoridade não auferem salários e o seu treino é bastante precário.

Refira-se que um documento divulgado ano passado pela Amnistia Internacional concluía que em alguns casos a polícia comunitária tem ajudado a reduzir a criminalidade, mas, noutras instâncias, limitou-se a espancamentos, à extorsão de luvas e a roubar.

Na verdade, temos vários problemas aqui. Temos o problema da manifestação clara de fala sem consequências na medida em que o comandante da PRM a nível da cidade de Maputo proporciona informação que não lhe compromete com nada respeitante ao seu próprio trabalho. A ideia de elaboração de um regulamento do policiamento comunitário parece-me excelente, sobretudo se ela tem como objectivo dar uma base jurídica a essa polícia e, acima de tudo, ajudar a eliminar choques com a PRM. Só que este exercício não começa onde o comandante pensa que começa, isto é na ideia de elaboração de um regulamento. O exercício começa muito antes, isto é no que as pessoas que, há dez anos, instituíram este corpo policial estavam a pensar quando o fizeram. Não previram os choques? O que lhes fez supor que não haveria choques? Que problema é que esse corpo policial ia resolver na altura e que tipo de critérios de desempenho foram estabelecidos? Dez anos é muito tempo e, por isso, é no mínimo curioso que volvido esse tempo a única razão de elaboração de um regulamento sejam os choques. O resto está tudo bem?

O principal problema, contudo, está no parágrafo assinalado. É tipicamente moçambicano. As nossas instituições abordam os problemas sempre da mesma maneira: organizam um seminário (ou vários), “auscultam” as populações, produzem um documento contendo as “sensibilidades” auscultadas e, finalmente, fazem uma conferência em que o documento é aprovado (inalterado). O problema aqui não é apenas de que se trata de um processo extremamente dispendioso. O problema é duplo. Primeiro, porque a procura de soluções para um problema institucional passa a ser o verdadeiro trabalho das nossas instituições. Explico-me: procurar soluções no nosso contexto não é procurar soluções, isto é identificar as acções que nos vão permitir resolver um problema. Procurar soluções significa fazer de contas que estamos a procurar soluções: organizando workshops, auscultando, colhendo sensibilidades, fazendo conferências, aprovando documentos. É um ritual. E parece-me racional. Os envolvidos vão viajar, andar a incomodar a população, fazer conferências e tudo isto com per diens e tudo. Não admira que passem a vida a fazer isso e se lixem depois para as próprias soluções que propoem.

O segundo problema é de gestão. Vejo neste método restos daquela convicção da Frelimo revolucionária de que o povo sabe (o discurso participativo da indústria do desenvolvimento tem também elementos desta convicção). Na verdade, a própria Frelimo nunca acreditou que o povo soubesse seja o que for, pois mesmo naquela altura tratou “enquadrar” e “encaminhar” ideologicamente as preocupações do povo. Esta crença continua com a ideia de que para se fazer qualquer coisa é preciso “auscultar” as populações, independentemente do grau de complexidade do assunto e da própria perplexidade das instituições. É daí, e isto é para encurtar a história, que o mais simples consiste simplesmente em observar o ritual da “procura de soluções” sem nenhuma intenção aparente de as aplicar com seriedade. E uma vez que o conteúdo perde importância, tornam-se importantes coisas supérfluas como as vantagens pessoais e materiais que se podem obter do exercício.

O povo sabe, mas nem sempre. Há assuntos que precisam de ser tratados por técnicos. Um ou dois técnicos que se debruçam seriamente sobre um assunto, submetem os seus resultados à apreciação de pares e ao debate na esfera pública. É mais económico, eficiente e racional. O ritual da “procura de soluções” é sinal mais do que certo de que quem por ele envereda não sabe o que está a fazer, nem tem nenhuma intenção de querer saber. Ouve-se dizer que os sul africanos, por exemplo, têm um bom sistema de pensões de aposentação e toca daí a mandar delegações para lá para irem “colher experiências”, quando o mais fácil, racional e barato seria pôr um técnico a estudar o assunto com base no seu conhecimento técnico, na leitura e na correspondência com pessoas abalizadas.

20 comentários:

Unknown disse...

Ha dias e num dos canais de televisão um outro comandante da policia, não me recordo o nome, referiu que um dos objectivos da conferencia nacional será o de definir o que é a policia comunitária. No mesmo instante recebi uma sms de um amigo, dizendo: "Tá-se mal".
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Elisio. Será possivel desenvolveres um pouco mais sobre criterios de desempenho e ate simulares exemplos concretos. A partida e sempre que leio os textos que te referes a isso, ocorre-me a ideia de indicadores de desempenho. Serão a mesma coisa? normalmente olhamos os criterios como requisitos de acesso a algo e os indicadores como instrumentos que nos ajudam a medir o efeito, mudanca ou desempenho de uma politica/projecto/instituicão.

Elísio Macamo disse...

"tá-se mal" só?
a tua pergunta é excelente. vou precisar de tempo para reflectir melhor. na verdade, porém, ainda não tinha chegado à fase de distinguir entre critérios e indicadores, embora ache útil a distinção que fazes. referia-me apenas ao funcionamento, isto é como uma instituição deve funcionar. mas dê-me tempo, vou regressar ao tema. é claro que não vou simular nada, isso para vocês os economistas... entretanto, veja aqui ao lado as ideias do eugénio chimbutane (racionalidade económica).

ninozaza disse...

No caso concreto da industria de desenvolvimento, o "discurso participativo" não será uma tentativa de busca de legitimidade por parte desta, junta das comunidades ou grupos alvos?

Elísio Macamo disse...

acho que deve ser e por isso mesmo é problemática. ao contrário do que a indústria pensa a participação não é a solução, mas o início dos problemas: quem representa quem? quem fala em nome de quem? como decidir? quanto espaço dar a quem? o resultado é quase sempre o que é possível fazer, nunca o que é óptimo.

chapa100 disse...

professor! gostei" participação não é a solução, mas o início dos problemas: quem representa quem? quem fala em nome de quem? como decidir? quanto espaço dar a quem? ". a industria do desenvolvimento produziu instrumentos de analise bastante uteis, mas ela entrou no ciclo consumista: ja nao questiona a sua propria verdade. e nos no hemisferio sul, que somos o objecto de estudo dessa industria, legitimamos esta tecnica de comecar por solucoes e nao por questionar problemas. vou dar um exemplo muito comum: em todos os debates e reunioes com nossos dirigentes, o dirigente aparece para abrir o encontro/reuniao, volta tres dias depois para encerrar (buscar solucao), sintomatico em mocambique e em muitos paises africanos, e ate podem ser encontros internos como conselhos coordenadores, conselho tecnico, conselho consultivo.

estudar o problema, problematiza-lo, mexer com os gomos - como diz carlos serra - nao interessa a nossa esfera de dirigentes.

e professor! os nossos ministerios estao munidos de gabinetes e departamentos de estudos e projectos. aqui talvez esteja o inicio do problema.

Elísio Macamo disse...

sim, para que servem esses gabinetes de estudo? boa pergunta!

Aguiar disse...
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Aguiar disse...
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Elísio Macamo disse...

iolanda, são muitas questões complexas que não sei se posso responder à medida da sua profundidade. creio que existe uma distinção entre o que chamas de culpabilidade objectiva e sentimento de culpabilidade, mas se essa distinção é feita pelas pessoas que se encontram em falha é uma outra questão. em moçambique dizemos que todos os ladrões, quando apanhados, dizem, independentemente da existência de provas sólidas, "dizem que roubei".
o assunto de wolfowitz não encaixa na "fala sem consequências", nem no "fenómeno da bicha", pois o contexto institucional dentro do qual ele estava a trabalhar é claro. foi essa clareza que deu visibilidade ao erro que ele cometeu. ao mesmo tempo, porém, essa visibilidade não o obriga a reconhecer culpa. mas que há uma incongruência entre o discurso moral ocidental e a sua própria prática, lá isso há. só que essa incongruência não é ao nível do desempenho institucional, pois os critérios claros de desempenho que regem uma instituição como o banco mundial permitem a purificação de fileiras. incomoda-me mais que uma posição daquelas seja ocupada sem nenhum concurso, apenas com base na vontade do presidente americano cuja capacidade de tomada de decisões racionais é duvidosa. mas felizmente o funcionamento da instituição é tal que permite a correcção.

Aguiar disse...
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Elísio Macamo disse...

iolanda, acho que há diferença entre o caso do paiol e o do banco mundial. no caso do paiol estamos simplesmente perante uma classe política que não tem a palavra "responsabilidade" no seu vocabulário. no caso do banco mundial estamos perante uma instituição que promove o sentido de responsabilidade, apesar de todas as falhas que podemos criticar. wolfowitz não acha ter procedido mal, mas para não prejudicar a instituição afasta-se. dessa maneira, o banco mundial pode continuar a combater a corrupção no mundo porque pode dizer que ele reage a isso. podemos ter problemas com o trabalho do banco mundial, mas o caso de wolfowitz é instrutivo sobre o valor da palavra "responsabilidade". mesmo o nosso ministro de defesa se ele se tivesse demitido não ficava de mãos a abanar e com os bolsos rotos. o estado tem a responsabilidade de respeitar as suas próprias obrigações em relação a ele. se a decisão de demissão resultasse de um procedimento criminal, aí a noção de culpa entrava em jogo e alterava toda a história. o que o governo moçambicano não viu no caso do paiol é que a não demissão do ministro da defesa tocou na sua credibilidade. mas isso, e aqui é onde está o nosso problema, não é importante num país em que existe o fenómeno da bicha e a fala sem consequências. os políticos não reagem ao povo.

Aguiar disse...
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Elísio Macamo disse...

iolanda, infelizmente o sistema político moderno funciona na base de actos simbólicos. é possível que o caso de nepotismo do banco mundial não repare a sua imagem; mas também é possível que sim. o importante é que o presidente se tenha demitido e, dessa maneira, demonstrar que o banco quer ser julgado pelos seus actos. o caso moçambicano é mesmo diferente. num contexto onde predomina a fala sem consequências e o fenómeno da bicha não há nem mesmo a necessidade de actos simbólicos. ora, eu acho que a demissão do ministro teria sido útil para criar um precedente muito importante. penso que a partir daí muitos responsáveis políticos teriam mais cuidado no que fazem (ou não fazem). penso, mas não tenho a certeza. e não vamos saber se ninguém fizer.

Aguiar disse...
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Aguiar disse...
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Elísio Macamo disse...

concordo contigo.

Aguiar disse...
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Aguiar disse...
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Elísio Macamo disse...

olá iolanda, não vejo incompatibilidade entre entre o que defendes e a necessidade de demissões. aliás, toda a minha argumentação tem sido nesse sentido de que é preciso que as pessoas ajam com base em critérios claros de desempenho para que as responsabilidades sejam claras. portanto, concordo contigo e com a elaboração que fazes do argumento que tento defender aqui.

Aguiar disse...
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