Acabo de ler esta notícia no País Online. Acho-a extremamente interessante. Sublinho as partes que me interessam e comento-as mais abaixo. Leiam, por favor:
Sete milhões de dólares para travar devastação florestal
15/05/2007
A representante do Fundo das Nações Unidas para a Agricultura (FAO), Maria Zimmermann, revelou que aquele organismo está neste momento a idealizar um projecto avaliado em sete milhões de dólares americanos para fazer face ao desmatamento ilegal de florestas no país, especialmente nas províncias do centro e norte, onde esta prática se tem verificado com maior regularidade.
Zimmermann falava à margem do encontro de formalização do Comité Nacional da Comissão do Código Alimentar – CÓDEX, realizado há dias na capital moçambicana, Maputo.
O referido projecto visa fundamentalmente potenciar o sistema de fiscalização e sensibilização de comunidades de modo a tornem-se interventivas em casos de as suas florestas serem postas em causa, bem como apoiar o Estado nas suas políticas de protecção de florestas.
Estatísticas recentes avançam que caso o país não busque soluções a curto prazo para travar a exploração irracional da madeira, algumas províncias do centro, caso por exemplo da Zambézia, poderão, dentro de dez anos, não ter florestas.
Maria Zimmermann referiu ainda que Moçambique não tem instrumentos capazes de avaliar em que situação as suas florestas se encontram, pelo que a realidade no terreno pode ser mais assustadora em relação às estatísticas, sendo necessário a implementação de medidas imediatas para contornar a situação.
A fonte concluiu que os fundos para o projecto, que se prevê dure cerca de cinco anos, ainda não existem na totalidade, estando a FAO a mobilizar os valores junto dos seus parceiros.
De salientar que esta organização coopera com Moçambique principalmente nos domínios social e económico.
As ciências sociais precisam de um longo fôlego. Está-se a “idealizar” um projecto que até já tem orçamento: 7 milhões de dólares. Fico curioso: fixaram primeiro o valor e depois começaram a “idealizar” o que é preciso fazer? Ainda pode haver confiança que as medidas resultantes dessa “idealização” são as mais adequadas? Nem me atrevo a colocar a pergunta que me parece primordial: qual é exactamente o problema lá com as nossas florestas? Se o governo tem dado a entender que o problema não é assim tão grave como se diz que “idealização” é esta que está a ser feita? Prontos, já coloquei a pergunta. A “corrupção” já está a esfregar as mãos, imagino.
Chavões. O ... projecto visa fundamentalmente potenciar o sistema de fiscalização e sensibilização de comunidades de modo a tornarem-se interventivas...”. “Potenciar”, “sensibilizar” e tornar-se “interventivo”. Este é o tipo de linguagem que me leva logo a concluir que ninguém quer fazer nada. Não deixa, contudo, de ser curioso notar que, afinal, o problema está definido: a fiscalização e a baixa consciência ou falta de poder das comunidades. É isso mesmo? E quem põe o guizo ao gato?
Superstição. “Estatísticas recentes” dizem que algumas províncias correm o risco de ficar sem florestas dentro de dez anos. Grave, mas provavelmente correcto. Só que quando a senhora que nos quer ajudar acrescenta, aparentemente sem nenhum piscar de olhos, que não temos instrumentos para avaliar a situação devidamente (portanto, as estatísticas recentes não constituem esse instrumento) e conclui que “... a realidade no terreno pode ser mais assustadora que as estatísticas” (e eu digo: se dez anos não é assustador, não sei que mais pode ser), deixo de ficar assustado e começo a interrogar-me se o assunto das florestas está a ser abordado por pessoas sérias. Porque não concluir que “... a realidade no terreno pode ser menos assustadora que as estatísticas”? Porque não pode ser? Porque a situação é mesmo grave? Porque é preciso agir? Nos anos oitenta li um interessante livro da autoria de J. B. Peyres, um historiador sul africano, que descrevia o famoso suicídio colectivo de Xlosas nos meados do século IX na África do Sul em resposta a uma profecia de uma menina de 12 anos que dizia ter falado com os antepassados e recebido ordens para que as pessoas deixassem de cultivar os campos e se preparassem para receber os defuntos que iam ressuscitar. Em antropologia chama-se a isto de “cultos do cargo”. Centenas de Xlosa morreram de fome assim mesmo. E de cada vez que a profecia não se concretizasse, as pessoas ficavam mais enraivecidas com os que continuavam a cultivar os seus campos e obrigavam-nos a deixar de trabalhar. Os britânicos tiveram que intervir, ainda que de forma brutal como sempre.
Não tenho dúvidas que as florestas moçambicanas estão mal. Também não duvido que é preciso fazer alguma coisa. Mas os contornos supersticiosos que a coisa está a assumir obrigam-me a insistir na necessidade de os académicos serem mais comedidos. Este problema ainda vai precisar de nós e seria bom que nos restasse credibilidade para o abordar quando os activistas estiverem com a língua de fora.
2 comentários:
É chegada a hora das benesses!
Lembra-se? Vamos ver quem se vai mobilizar para operacionalizar “os projectos”
que visam reverter a situação de um problema que mal se sabe qual é? E em nome de quem vai ser feito? Comunidades! Estas nunca pensam por si, tem sempre bons e fies representantes!
patrício, por favor, não fales assim de problemas sérios. é tempo de agir...
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